Os críticos cinematográficos portugueses que, como se sabe, gozam da fama merecida de não serem grande coisa, esforçam-se por reduzir o filme ao período dos anos 50, na transição do cinema para a ascensão e predomínio dos meios televisivos, em que os filmes se limitam a servir de rampa de lançamento para a variadíssima série de produtos de consumo que a indústria do espectáculo envolve (os telemóveis "dernier cri", as tablets, os computadores com novos écrans anti-reflexo a explodir de mega-bites, os CD's, as t-shirts, os jeans, a colecção infindável de bonecos e porta-chaves, etc, etc).
Deitem ás urtigas os artiguelhos dos pseudo-críticos. O "Salvé! César" dos irmãos Cohen é bem mais do que isso. É uma sátira contundente, metafórica, sobre a tentacular indústria do espectáculo e o seu imenso poder ideológico, manipulador, a nível planetário.
E não o faz de uma forma simplista, maniqueísta, mas repleta de criações do mais fino humor como:
O personagem Eddie Mannix/Josh Brolin, que é capaz de destruir, bajular ou mandar assassinar as outras personagens sem que lhe batam as pestanas, confessa-se habitualmente de 24 em 24 horas porque mentiu à mulher dizendo que não fumou nenhum cigarro, porém fumou um ou dois.
O personagem confessor, enfastiado com as confissões diárias de Eddie Mannix, vai-o aconselhando a que espace mais as suas confissões, sem deixar de lhe aviar umas tantas avé-marias e padres nossos.
A personagem diva, vulcão de cóleras sempre em erupção, interpretada pela loiríssima, lindíssima Scarlett Johansson que consegue desfigurar-se com tanta raiva subterrânea.
O snob realizador de musicais - Raff Fiennes -, de aparência suavíssima, que se revela um ditador tirânico no seu "métier".
O personagem - Max Baker - líder de uma sociedade secreta de argumentistas "comunistas", na realidade filiados nas concepções Herbert Marcuse ( na vida real um dos membros centrais da Escola de Frankfurt a leccionar nos EUA, que punham um sinal de igualdade entre nazismo e estalinismo).
As personagens, irmãs gémeas, jornalistas de jornais e revistas das escandaleiras reais ou inventadas dos divos e divas, superiormente interpretadas por Tilda Swinton.
O personagem herói de westerns - Alden Ehrenreich - péssimo actor na personagem, que é rapidamente reconvertido num galã romântico onde desatina ainda mais, mas que se revela um investigador hábil e corajoso.
E, cereja no topo da sátira, o personagem centurião romano, simultaneamente estúpido e oportunista, dominando uma lógica arrevesada e labiríntica ( de nos desmanchar á gargalhada), interpretado por George Clooney, a demonstrar que não sabe só vender embalagens e máquinas de néscafé.
Etc, etc, etc. Não me sobra é já paciência para Lhes falar de Marcuse, dr. Mabuse e Gus Hall que deixarei para uma próxima bobine.
Como sempre, amplexo amistoso mas mui cauteloso do
Leopardo
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