Reflexões do Leopardo

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domingo, 20 de agosto de 2017

O "Ferragosto", Fellini & as Maxi-Carpideiras

O dia 15 de Agosto é conhecido em Itália por Ferragosto. É feriado em toda a Itália, está tudo fechado e até o Superloto, se calha nesse dia, é adiado.
A expressão "Ferragosto" deriva do latim "Feriae Augusti", destinava-se a celebrar o Imperador Augusto e não se limitava ao dia 15, mas estendia-se a todo o mês.
Os antigos romanos utilizavam o fogo como fonte de purificação - os trabalhadores davam "auguri" aos patrões e recebiam em troca moedas .
Ainda hoje as pessoas acendem enormes fogueiras nas praias, saltando-lhes por cima ( o que exige coragem e é perigoso ) para combaterem as forças do mal e retardar a chegada do Outono.

O grande cineasta Federico Fellini - autor de tantas obras-primas como "Fellini 8 e mezzo", "La Strada" (com a mulher da sua vida, a espantosa actriz Giulleta Massina) , "Roma Cidade Aberta" em colaboração com o monumental "verista" Roberto Rossellini, etc, etc - focou também as festividades do Ferragosto nesse "capolavoro afascinante" "Amarcord", que é imperdoável perder-se ( os cinemas Nimas, em Lisboa, e o Teatro de Campo Alegre, no Porto, repõem até Setembro uma recolha da sua obra ).

Fellini sempre negou que a sua obra fosse autobiográfica, porém num estilo que mistura o onírico e o real mais caricato, a realidade do fascismo italiano é ferozmente caricaturada através de personagens maiores que a vida como a "beldade" de tonelada e meia que tem um orgasmo com a face sufocada do adolescente (talvez Fellini) entre os seios de arrobas, ou a ninfomaníaca que na praia se entrega a qualquer macho que surja,  ou "La Gradiva", suposta rameira de luxo que todos os homens de Rimini cobiçam, ou o único antifascista ( pai de uma numerosa família, na qual só ele a mulher trabalham ) que ousa desafiar o poder militar fascista italiano, pondo a tocar na torre da Igreja a Internacional , coragem e provocação que os fascistas lhe farão pagar enfiando-lhe, com um funil, pela garganta abaixo uma mistela que o fará desfazer-se em diarreia durante dias.

Fellini negou elementos autobiográficos, todavia Rimini foi a sua cidade natal, e depois verdadeiramente não interessa - a não ser aos historiadores da Arte Cinematográfica - se o Mestre os viveu na carne ou não. Os personagens resistem ao tempo, às modas e tipificam uma época. Em meu entender, o Maestro Fellini convocou as suas memórias afectivas e, a partir delas, elaborou uma catedral cinematográfica. 
Dando o meu modesto testemunho de apaixonado da "bota italiana",  a cidade de Rimini é uma das poucas povoações italianas com uma praia razoável. Até tem uns trechos de areia acinzentada, para além de uns calhaus negros rolados, onde as pessoas jazem em cima de cadeiras de madeira. Nadei lá umas vezes, numa água morna e pouco transparente. Bom mesmo, só na Sicília, onde nunca pus os pés.

Agora, saltando destas notas sobre o Ferragosto - feriados que se propagaram a uma série de países ao norte de Itália, como a Áustria, a Hungria e outros mais para Norte - e passando aos incêndios que destroem Portugal e Ilhas de lés a lés, deixando o seu rastro de vidas ceifadas, terras queimadas e incultas, casas, celeiros, transportes, estradas destruídas, quiçá para sempre, com as entidades oficiais a afirmar que existem provas de uma rede de crime organizado, e as creditadas polícias lusas a deterem mais de 90 suspeitos e os Tribunais a deixarem-nos sair em liberdade condicional, assinalados por umas pulseirinhas.

Agora, mais um fogo ateado às portas da Covilhã, que mobiliza mais de um milhar de profissionais, que contracta mais 3 aviões-cisternas a Espanha - com o que isso implica em gordos €urios para o erário nacional e, portanto, para o Zé Povinho - não é aceitável que o chefe Costa venha palavrar sobre o Marquês de Pombal e delirar com harpejos de que só a destruição da Lisboa feudal pelo Terramoto de 1755 (seguido de maremoto e uns 100 mil mortos...) permitiu a construção da moderna Lisboa pombalina.
Oh chefe deixe-se de aldrabices ! O País  e o Povo Português não precisam de um palhaço com queda para ditirambos. Precisam de um Chefe de Governo que legisle no sentido de travar e inverter o terrorismo  do fogo encomendado.

E algo semelhante se exige de Sua Excelência Excelentíssima, o Senhor do Martelo que não pode limitar-se a ser uma carpideira de luxo, a lamuriar, abraçar e tirar "selfie's" com as vítimas ou os seus familiares. Deve assumir-se como o garante da Constituição da República - que jurou defender ! - e liderar no sentido de impedir a terraplanagem do território português.



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Saudações sempre confiantes do

Leopardo


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Terrorismos

O atentado em Barcelona, nas Ramblas, bairro que conheço bem ( aqui há uns 20 anos atrás assisti lá, num pavilhão olímpico, a um campeonato mundial de Judo, onde todos os dias víamos matulões e matulonas de meter medo ao susto com aparelhos de gesso e canadianas para lhe amparar os ossos partidos nos combates que tinham perdido ou ganho na véspera... mas iluminados por uma felicidade inocultável ), pois é uma zona meio "guitana", que atrai, além dos residentes na cidade, imensos estrangeiros e malta alternativa, que sobem e descem aquela avenida em diagonal numa azáfama frenética, veio recolocar uma vez mais a questão do terrorismo como instrumento político. 

A discussão em torno do Terrorismo não é nova para mim, comecei a discuti-la pelos meus 18 anos num círculo de amigos/as onde predominava a paciência pedagógica do João, militante do PCP, com mais do dobro da idade dos restantes, que nos ia esmiuçando que o Terrorismo consistia na "argumentação" dos que tinham perdido a confiança no seu ideário e tentavam impô-lo pela violência, isto é, exactamente pelo contrário de argumentos razoáveis.

É clara que vinha sempre à baila, a existência da ARA ( Acção Revolucionária Armada ), onde participavam militantes do PCP. O João explicava que a ARA, assumia o compromisso de não provocar vítimas humanas, cuja acção por ventura mais brilhante tinha sido avariar uma série de helicópteros de combate das forças coloniais salazaristas introduzindo açúcar no motor das "bichas". Logo alguém retorquía que no assalto ao paquete "Niassa" - que Salazar utilizava para transportar tropas para a guerra colonial - um dos militantes da ARA disparara uma pistola e ferira uma pessoa a bordo. Calmamente o João esclarecia que tinha sido o Edmundo Pedro, sem filiação política declarada, bastante imprevisível no seu comportamento, que, posteriormente ao 25 de Abril , aderiu ao PS.

Pelo menos no meu bestunto a argumentação do João contra o Terrorismo assentou arraiais até hoje. Acresce que no atentado de ontem, eu tinha exactamente em Barcelona, nas Ramblas, cerca do local do atentado, metade da minha muito adorada família: um filho, uma nora, um neto campeão de voley, uma neta campeã de ginásticas várias. Nada lhes sucedeu, estão hoje a regressar de automóvel, todavia a questão do Terrorismo retoma toda a sua acutilância. O balanço oficial das Ramblas aponta para 16 mortos - um deles uma portuguesa de 73 anos - e mais de uma centena de feridos, números tendentes a elevar-se.

A minha perplexidade imaginosa pergunta: e o mandar atear fogos em todo o País não é Terrorismo ?!... Mandar atear fogos em todo o território nacional, de Norte a Sul, fazer arder gado, sementeiras, colheitas, celeiros, casas, património cultural sem preço, não é Terrorismo ?!!... Tratar o País  a ferro e fogo não é Terrorismo ?!!!...
Diversos autarcas e um que outro membro do Governo afirmam "não haver dúvida tratar-se de uma rede de crime organizado". São palavras pesadas. Contudo, as nossas eficientíssimas Polícias - com créditos reconhecidos na estranja - detiveram mais de 90 suspeitos e deixaram-nos sair em liberdade condicional com uma pulseirinnha... Simpáticas, tolerantes...

Nem vale a pena estar a desviar a atenção para palhaços de poleiros internacionais como Donald Trampas - a medir mísseis com a Coreia do Norte - ou para bichos de capoeira do terrunho, num cacarejo constante no afã de lhes crescer a crista. Não chefe Costa, não ficamos mais tranquilos pelo facto de Sua Excelência, não elevar o nível de segurança para um patamar superior !...   


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Sempre com a confiança inabalável

dos Leopardos da Arraia Miúda 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Lady Macbeth e a "jointventure" Ágata-Cristas

Está em exibição nalguns cinemas de Lisboa o filme notabilíssimo "Lady Macbeth".
É realizado por William Oldroyd e interpretado superiormente pela actriz Florence Pugh, acompanhada por um elenco de luxo. É uma produção de 2016 da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte , com 99 minutos de projecção - que parecem mais tal a sua intensidade.
A obra é notável quer pelo enquadramento e ritmo lento, obsessivo, das imagens (a recordar Karl Th. Dreyer) quer pelo conteúdo, que escalpeliza de miúdo o domínio das classes possidentes sobre as sub-classes exploradas.

É claro que os criticosinhos do periódico "Público" anematizam a película como condenam ao opróbio tudo o que lhes cheire a visão marxista da vida humana. Possuem uma concepção olfactiva da História tal como os répteis e espelham o grau de "objectividade" reinante nos "mírdias" nacionais e da estranja.

É um facto que a "Lady Macbeth" de Oldroyd/Florence Pugh não é obra que se recomende para antes ou após a ceia, sob pena de ficarmos com azia no estômago e na alma. A violência explícita do discurso verbal, ora cruel ora de um cinismo hipócrita, das imagens de paixão-sexo, dos assassínios, nomeadamente o de uma criança sufocada com uma almofada, criança estirada num sofá, a espernear até ao suspiro derradeiro, pertence às maiores violências a que já me foi dado assistir no cinema. 

Na verdade esta obra recolhe a sua inspiração histórica na peça de Shakespeare, mas recolhe de um passado mais recente, da curta novela "Lady Macbeth do Distrito de Mtsenko", saída da pena do escritor russo Nikolai Leskov, publicada em 1865.
Esta novela, por sua vez, atraiu o magnificente e polifacetado compositor soviético Dmitri Shostakovicht, o qual, a partir dela, ergueu a Ópera acima citada, que foi estreada em 1934, em Leninegrado ( hoje, num retorno ao passado czarista, de novo São Petersburgo ) com enorme sucesso. Sucesso que se repetiu no estrangeiro quase em simultâneo. Josef Vassillievitch Stálin assistiu a uma das representações no Teatro Bolshoi, em Moscovo.
A Ópera de Shostakovicht foi alvo de inúmeras polémicas, dentro e fora da Rússia Soviética, pelo arrojo e modernidade da sua textura musical, empurrando o grande compositor, posteriormente, a justificar-se compondo ainda alguma música ao "estilo" tradicional.

O meu subconsciente, obedecendo às leis mágicas do onirismo, associou-me ao belíssimo e terrível filme "Lady Macbeth" as recentes posturas de Ágata, cantora pimba em escala descendente, e de dona Cristas, maestra tresvariada do cds-pópó .
Ágata, que já conheceu tempos melhores a cantar ao lado Fernando Farinha, Max, Maria de Lourdes Resende, Tony de Matos, António Calvário, das "Doce", que emprestou a sua voz ao tema da série "Abelha Maia", nesta cava da sua carreira declarou que será candidata do cds-pópó por um círculo eleitoral qualquer, "porque mais nenhum Partido a convidou e porque de política não percebe raspas" ( declarações transparentes da própria).
Dona Cristas, que tem cacarejado num reboliço onde quer que tope palco, deve, pois, estar de crista entumescida com esta adesão ( ou abrasão ? ) canora.
Desta coligação não sortirá decerto uma Ópera dramática, todavia aviará à fartura uma Ópera "buffa". Um Mozart precisa-se!... 



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Saudações encaloradas, divertidas, confiantes

do Leopardo


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Os inomináveis de Caminha 2017

Esta edição do meu blogue tem por finalidade destacar pessoas cujas personalidades não devem ser misturadas com outras no mesmo cadinho quer pelo seu nível rasteiro quer pela sua qualidade superior.
Começando por baixo, a Monga empregada de um café com esplanada, ao lado da papelaria de todos os jornais no Largo do Chafariz. O café-esplanada serve os melhores "bolinhos de bacalhau" de toda a região, competindo mesmo com os do Porto. À Monga só lhe falta morder. Quem a crismou foi a minha excelsa esposa, a Bela, a qual em matérias de crismas e catolicismos não é peca.
Num nível ainda mais subterrâneo do da Monga situam-se o dono do restaurante-esplanada Chafariz  e o seu filhote adolescente Luís que imaginam poder ironizar, sem que se perceba, com os seus clientes que não são afectos ao Spórtém. Que eles sejam adeptos do honrado SCP ninguém o contesta, é apenas uma questão de bom gosto, agora que sejam "tiffosi" desmiolados do Pequeno Líder Gordo ultrapassa as fronteiras éticas do Desporto, da Cultura, do Património Nacional que é a Língua.
Tiveram sorte no facto de eu, Leopardo de antanho, não ter tido tempo para lhes ir decorar a frontaria do restaurante com osgas pintadas a spray's verdes e amarelos. Mas pode ser que lá volte nos tempos invernosos só para isso. Nunca devem ter encontrado um Leopardo com o meu bom génio a rondar-lhes a loja...

Abandonando o patamar do rés-do-chão, elevando-nos para as varandas de topo, encontramos o meu Amigo Rui Braga, dono de uma pequena mas agradável explanada em cima das areias das inolvidáveis praias de Moledo ( coexistem lá o rincão dos titis de Moledo, a fina flor da alta finança nortenha, a média burguesia mais uns golfões de alternativos/as de trançinhas, tatuados até na alma, a falar todas as línguas, e os patuleias absolutos, com o sentido estético que se imagina, a gorjear a língua "lol", "okay", "yes mon" )
Ora, o meu amigo Rui Braga este ano estava com uma azarina do catorze, pois os meses de Junho e Julho, em regra auspiciosos para as sandes, tostas, laranjadas, sumos, coca-colas, wiskyies, aguardentes velhas que vende no seu apertado espaço comercial, este ano manifestava-se bastante para o "beriovska": tempo mui emocional, com bandeiras vermelhas no mar ( nem eu estou acostumado a tanto ! ), ora sem "nortadas" (ventos dos lados da Galiza, com horários pontuais a iniciar-se às onze e meia da matina), ora com "nortadas" fora do horário.
Da temperatura das águas nem vale a pena falar, aquilo só se atura com fatos térmicos, tirante cá o Leopardo, que vai para dentro do maravilhoso Atlântico com um fato de banho vulgar e sai de lá uma/duas horas depois... em hipotermia, pois claro, todo roxo... todavia, com o enorme prazer interior de ter enxofrado a alta finança, os titis.
Nos últimos dias que lá passei, o tempo mostrou-se mais dialogante, porém abandonei os territórios caminhenses preocupado, dado que o Rui Braga - com um curso especializado numas electrónicas de que não percebo caroço - sustenta-se à custa daquilo e do velho pai que mantém um negócio de soalhos ( a riqueza interior, a generosidade, a coragem da Arraia Miúda portuguesa é inesgotável ... ).

Para terminar esta minha edição do blogue devo teclar os nomes das minhas recentes Amigas, Maria Manuel e Cristina.
A Maria Manuel é dona de uma hospedaria nos topos de Seixas, com uma vista soberana sobre a foz do Rio Minho ( que nunca me cansarei de cantar com as artes que os mesmos deuses de Camões me concederam ), uma hospedaria na Avenida da Bela Vista, nº 19, hospedaria de 8 apartamentos - pequenos almoços à inglesa ! - que dá pelo nome de Amare, turismo rural.
A Cristina é a empregada da Maria Manuel, uma daquelas empregadas que nem implorando a um daqueles deuses do Luíz Vaz se consegue ( a definição é da patroa).

Pois fiquei amigo destas senhoras pela gentileza com que me trataram e ainda mais pelo amor demonstrado ao terrunho adoptado ou natalício. Não é apenas um amor ao chão que lhes fornece o sustento, é um amor genuíno por terem intuído que vivem no ventre do que noutros escritos denominei de "Umbigo do Mundo". Não existe exagero no que teclo. Sou poeta pobre. O que me desborda é a realidade que redescobri. Se me propusessem o título de "escritor de Caminha", considerá-lo-ia uma honraria semelhante ao Nobel da Literatura.

Ao quadro desta recente amizade, é justo ainda acrescentar que a Maria Manuel prometeu deixar-me teclar na enorme e antiga secretária do Vôvô dela e eu consinto que ela lá aparafuse uma discreta lápide a testemunhar ( "aqui escreveu o melhor escritor luso dos séculos XX e XXI" ). Entendamo-nos, o excesso de modéstia transmuta-se no seu contrário...
Acresce também dizer que a Maria Manuel tem um iate e carta de patrão de costa, o que poderá proporcionarmos umas passeatas pelo  "afascinante" Rio Minho. Eu, que fui oficial fuzo da Briosa, nem o Sol ou a Estrela Polar pondo-se a jeito, consigo determinar o Norte, tiro-lhe a minha bóina de fuzileiro especial.

Como é meu hábito respeitar a palavra dada já me pus em contacto com o João Monge para elaborarmos uma Ópera "buffa" sobre o defunto reitor do Liceu Camões (em Lisboa, nos idos de 1950/55) Sérvulo Correia (para ficarem com uma ideia, o actual deputado do PSD na AR, Sérvulo Correia é um lídimo democrata ao lado do defunto pai). Mas, o Monge (que faz férias em San Miguel, Açores) já está comprometido com uma Ópera com gente do Porto.
Telefonei igualmente ao José Peixoto (a férias não me recordo onde), o cujo qual director do Teatro dos Aloés me respondeu que, após 17 de Setembro tabaqueamos o assunto. Como conto confiadamente com o meu Amigo Giovanni Andreoli, maestro do Coro do São Carlos pode acontecer que "ça irá, ça irá"...





Saudações fraternas

neste Verão de todos os Verões

do Leopardo 

     

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Os empregados de mesa de Caminha

Vou tentar fazer uma síntese dos empregados de mesa de Caminha, vila dos meus amores.
Há quem se apaixone por uma pessoa, pela família, por um grupo de amigos. Eu tenho mulher e família numerosa ( 6 netos que adoro ! ) todos dentro do meu coração, uma tarraçada de amigos e camaradas a quem estimo muito, e, para além disso, uma povoação cuja vida ultrapassa a do conceito de Nação - irá para os seus dois mil anos - um porto natural, uma concha de água plana na foz do Rio Minho - onde o conceito de Nação, inconsciente de o ser, terá começado a soltar os primeiros vagidos.
Casario talhado em pesadas lages de granito a afundar-se no solo, a ressumar humidades, com 500 anos de existência são paisagem vulgar, ainda não seriamente manchada por "maisons" prantadas no centro de relvados "françiús" ou blocos de betão armado com frontarias em vidros duplos de estilaço teutónico.

Convém ainda explicitar que estou a usar a designação de Caminha num sentido territorial demasiado amplo - centrado, de facto, na Vila de Caminha, 6500 residentes nos chuvosos Invernos - , mas que abrange as povoações de Vila Nova de Cerveira (centro de Artes várias e de bienais de Pintura, Escultura, Artes Gráficas, Cinema, Audio-visuais), Lanhelas (com famosas tascas de petiscos), Seixas (até garagens onde se arranjam automóveis com electrónicas arrevesadas como a do meu audi amarelo mostarda), Moledo, praia da alta finança nortenha, Porto incluído, com mansões saídas dos estiradores de excelente gosto dos mestres Sisa Vieira e Souto Moura (é nos jantares degustados nestas mansões que são negociados os casamentos das meninas das boas famílias com os jovens de famílias igualmente endinheiradas para que o Grande Capital continue concentrado nas mãos certas, e não se extravie por algumas veredas de ocasião e hormonas inflamadas), Vila Praia de Âncora sem âncora particular que se lhe assinale além de umas bombas de gasolina.

Enfim, na Vila de Caminha termina, ou inicia-se, conforme o sentido que se adoptar, o famoso pinhal do Camarido ( sim, o do fantástico poema de José Régio ), a rescender a caruma e iodo, onde o ar bronzeia mesmo quando o céu se mostra nublado e a temperatura no Oceano oscila entre os 15 e os 18 graus centígrados ( 18 é considerado "quente" e pouco vulgar ).

Há 2 mil anos atrás de que se abrigavam os coevos caminhenses na sua concha de águas plácidas na foz do Rio Minho?... Dos terríveis Vikings, gigantes louro-arruivados, navegando em navios à vela, balsas de toros, canas, toscos remos, que assaltavam as povoações costeiras para se alimentar, para roubar, para violar mulheres e adolescentes, para passar à espada e ao machado a população viril.
Os coevos caminnhenses, faz dois mil anos manhosos, tentavam atrair os piratas vikings para uns montes graníticos, 600 metros acima das tranquilas águas do Minho , prenhes de apetecíveis cervos, e, se os gigantes arruivados, barbudos, caíssem no engodo de os perseguir, iam-nos dizimando nas montanhas armadilhadas, até culminar no incêndio das ousadas naves piratas, fundeadas na concha da foz do Rio Minho

Pois bem, toda esta região de intensa vida veranil, onde se atropelam galegos, espanhóis, brasileiros, italianos, franceses, ingleses, holandeses, alemães, nórdicos de proveniências não identificadas, russos ( cadinho cultural que os jornais à venda demonstram, a meter inveja às melhores papelarias de Lisboa e Porto ) é posta em movimento e servida por umas equipas de empregados/as de mesa que não excederão umas dezenas e que procurarei tipificar. Observar estes empregados de mesa a trabalhar é exaltante e dedicar-lhes-ia um poema se fosse capaz.

Começarei pelo João. É de Gondarém, aldeia próxima. Foi campeão de judo juvenil do Glorioso ( do SLB, raios!, não do Glorioso acima de todos, postura quase inimaginável, a raiar a genialidade ou a loucura, aqui em terras minhotas ). O João, benfiquista pr'á vida, hoje jovem trintão, alourado, barbas paquistanesas, algumas tatuagens, barriga a empinar apesar de girar numa roda viva, ajoujado de travessas, pratos e imperiais milagrosamente equilibrados, poderia ser ministro dos Negócios Estrangeiros de qualquer potência europeia. Guarda sempre uma palavra optimista para quem quer que seja: fedelho esganiçado numa birra, mãe desesperada sem biberons, russo que só debita "spassibas", "bolchóis", "niets", "tovarichs".
O João de Gondarém e eu ficámos amigos, amizade selada por um calendário que me ofertou com a época futebolística do SLB para todo o 2017 . É de Amigo !...
Na mesma explanada da Vila de Caminha trabalha uma Isabel, mocetona de cabelo ruivo à custa de anilinas, que não é de Gondarém e que, por isso mesmo, afirma que o João percebe pouco da região e dos seus pescados (suspeito que a rapariga é do Sporting o que inquinará os seus juízos sobre o colega). Ela é que é a especialista em solhas, linguados, lingueirões, trutas,  tamboris, douradas, mexilhões, carapaus, sardinhas, espadartes, bacalhaus, atuns do atlântico minhoto - as duas últimas espécies piscícolas não nadam nestas águas, trata-se somente de um romantismo regional perfeitamente atendível. E com esta Isabel não se discute que ela todos os dias arruma as volutas aniladas em rabos-de-cavalo diversos. Poderá até tratar-se de uma ninja do kunfú caminhense !
Ainda na mesma explanada move-se uma doçura minhota, a qual, ao ver-me tão trôpego, sempre me oferece o braço para afastar a cadeira, subir um degrau, guiar-me ao WC. Nunca lhe senti som, apenas sorrisos.
Na dita explanada corre como perdigueiro a farejar freguês por atender uma empregada rodas baixas cuja única preocupação estética é assegurar-se que os longos cabelos negros se dispõem de um lado e doutro da t-shirt amarela (nesta explanada as t-shirt's amarelas são o bilhete de identificação) e que o telemóvel não lhe escapou do bolso traseiro dos "jean's"

Duas explanadas mais abaixo, num espaço mais popularucho, ciranda o meu recém-amigo Carlos , "nha cretcheu" de barba jovem mal semeada, que fala um português com um subtil acento crioulo, que sorri constantemente, e sempre nos impinge uns magníficos pastéis de bacalhau - aqui denominam-se "bolinhos de bacalhau" - , acabadinhos de sair da sertã, em número superior ao que tencionávamos ingerir. Mas, férias são férias, e o Carlos é um campeão crioulo com um fraco pelo ar inglês da minha bela esposa.

Nos restaurantes e explanadas de Vila Nova de Cerveira os empregados-artistas são outros. Um deles, numa alegria exuberante, informou-me, golo a golo, do resultado do Benfica-Guimarães . Nunca consegui inquirir qual o seu nome, porque, quando elevava a voz para demandar, o moço já desandara na tal alegria.
Nessa mesma explanada, um empregado jovem erguia ou baixava a bandeja, conciso, óculos de seriedade, só vigilante a cliente por atender. Nada de conversas, nada de palavras desperdiçadas.
O meu preferido, um verdadeiro imperador dos empregados de mesa, também não gastava palavras. Erguia a bandeja acima da cabeça, dava-lhe uma volta para cada lado, determinava o que era preciso fazer, dominava toda a área em torno. Mentalmente, desejei-lhe toda a sorte do mundo e que todos os deuses imagináveis assim o conservassem para sempre. E quando o enterrassem, se o enterrassem, que fosse de pé !

Finalizo com os empregados-gerentes-donos do "Ninho de Andorinhas" (não me pagaram pela publicidade!), um dos restaurantes onde melhor se come em todo o Alto Minho. O gerente-dono, empregado de expedientes práticos, quando o aconselhei a não dizer a ninguém que o doce que me servira era um "tiramiçú", retorquiu-me com uma palmadinha no ombro, que "estivesse descansado que não o faria", desandando de imediato para comensais de importância financeira superior à minha.
Nos entretantos, eu e a dona-gerente-cozinheira entrámos em confidências e confirmei que o belo arroz à minhota, obrigatório em qualquer prato de peixe ou carne, quase não se cozinha, substituído pela torpeza "cowboy" da batata frita. O belo arroz era frigido com banha, cebola, dente de alho, até ficar acastanhado. Escrevem as bíblias médicas que faria mal que se farta por causa de toneladas de glicéridos. Mas que sabia fantasticamente era inegável. E lá estava o verde tinto que suja a malga para esbater as gorduras. E as bíblias médicas não têm parado de evoluir com os tempos, as modas... e os interesses da indústria farmacêutica !
Aliás, foi no "Ninho" que conheci uma Misé, desalinhada do BE, que adora Cuba, a Ilha da Liberdade, Fidel Castro , o Ché, o Povo Cubano e que considera que a Cuba Revolucionária se tem vindo a constituir em torno daqueles dois líderes carismáticos, já não equivalendo à Cuba de Raul Castro. Dada a barulheira que umas companhias de tambores insistiam em troar por toda a Vila Nova de Cerveira, não tive sossego adequado para lhe perguntar quem imaginava que tinha desembarcado em Cuba a 26 de Julho e quem tinha combatido na Sierra Maestra. Para a Misé o que interessa são os líderes carismáticos, o Povo Cubano, os Santiaguenhos são mui pouco. Ou seja, as raízes bloquistas são difíceis de extirpar...

Quase, quase finalizando (a gente vai aprendendo as argúcias minhotas...) chamo a atenção para uma nova empregada do restaurante finório "Primavera". É uma moça farfalhuda de carnes, que substitui uma colega em licença de parto, aconselhando sabiamente os melhores pratos do dia e as doses suficientes. O restaurante cozinha bem e oferece um licor de tangerina com aroma a mofo suportável. Porém, a nova empregada, farfalhuda, é um "must".

Por fim finalizo mesmo ( já estou farto ! ) . Ontem jantei (quase só temos manjado uma refeição à séria) numa casa de pasto em Moledo. Logo à entrada deparei-me com o Fausto, músico que construiu quase todo o seu fausto a subir "Por este rio acima" e mais umas variantes à viola de gamba e flauta transversal, grande e feliz músico que João Monge adjectivou lapidarmente de "faustérrimo"
O empregado, jovem que ainda não deve ter atravessado a fronteira dos dezoito, foi-me contando que de vinhos não entendia raspas, só emborcava "loiras", de modos que todo o trabalho de lhe perorar uma introdução ao a-b-c do néctar das uvas foi meu.

Uma canseira, tanto mais quanto na véspera tinha tido o desgosto de perceber que afinal os bofetões que apliquei sem razão a um colega, não tinham sido espalmados nas bochechas do constitucionalista Jorge Miranda, mas nas faces de um outro colega qualquer. Procedi mal, mas do mal, antes o menor. Eu e o Miranda fomos condiscípulos no liceu lisboeta Camões, todavia em turmas diferentes. Ele definiu o reitor Sérvulo Correia como "severo", eu defini-o como " um facho de 4 costados, que tinha sido corrido à pedrada do liceu da Guarda durante a ditadura salazarenta" . De facto, a adjectivação define o mundo e os seres humanos...  


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Saudações confiantes na luta colectiva, organizada

o Leopardo