Reflexões do Leopardo

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Terror Revolucionário, Terror da Inquisição - Comparar o Incomparável

Uma Camarada minha colocou uma questão interessante, tão interessante que penso valer abordar numa edição do blogue, em lugar de lhe responder a nível particular.

A minha Camarada colocava a questão assim: sim senhora, "Nós", a Esquerda, assumimos o período do Terror e as suas execuções sumárias durante o período de Robespierre na Revolução Francesa. A Inquisição alguma vez assumiu os crimes que cometeu, o Vaticano já pediu formalmente desculpa por eles?... Quando "Eles" o fizerem pelo lado deles, "Nós" faremos outro tanto do nosso lado.
Ora, eu julgo que colocar a questão desta forma é comparar o incomparável.





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Para quem se interessa pela Epistemologia, isto é, pela Filosofia das Ciências, ou, dito de outro modo, para quem se interessa pela reflexão que a ciência realiza em torno dos seus próprios fundamentos - métodos e objectos de estudo na busca da "verdade" - sabe que existe uma diferença de grau apreciável quanto ao rigor ou "objectividade" das ciências ditas "da Natureza" - Física, Química, Astronomia/Astrofísica, Biologia - e as ciências ditas "do Homem" ou "Humanas" - Sociologia, Psicologia, História, Linguística . 

Isto simplificando, e sem nos alongarmos em qual dos lados colocamos disciplinas como a Etologia (estudo dos comportamentos das diversas espécies animais e suas formas de comunicação ou "linguagens").
Ou sem colocarmos a questão de o mesmo "objecto" de estudo ser alvo da abordagem de várias disciplinas científicas e de como estas abordagens se relacionam entre si: por exemplo, o "objecto" Homem ser estudado pela Física, Química, Biologia, Sociologia, Psicologia, História.

A Epistemologia que no século XIX era considerada como um cantão dos diferentes ramos da Filosofia, na contemporaneidade não existe doutoramento científico que não inclua uma reflexão epistemológica, mais ou menos desenvolvida, sobre a sua própria disciplina.

Convém ainda dizer que até Galileu (século XVI/XVII) e Isaac Newton (séc. XVII/XVIII) as concepções sobre o conhecimento verdadeiro (a palavra grega "épistemé", cunhada por Platão, significava "conhecimento verdadeiro") se repartiam entre a concepção platónica e a concepção aristotélica.
Segundo Platão, o conhecimento verdadeiro só existia ao nível das "ideias" - entidades reais, mas não sensoriais, sem contradições entre elas, que só se atingiam pelo pensamento - e as "sensações", provindas dos sentidos, mas que eram contraditórias entre si, fontes perpétuas de erros, e que podiam "participar" desse conhecimento conhecimento verdadeiro logo que desembaraçadas dessas contradições pelas entidades ideais. Esta, pois, a concepção idealista mais radical do conhecimento.
De acordo com Aristóteles, as "sensações" eram já portadoras de uma certa realidade, isto é, de um certo conhecimento verdadeiro, que precisava, porém, de ser ordenado pelo exercício correcto da Razão (daí as suas investigações sobre esse exercício, condensadas na Lógica, a que Aristóteles deu o nome de "Organon", significando "instrumento" - subentenda-se, do exercício correcto da Razão e dos seus desvios). Uma concepção do conhecimento tendencialmente materialista.que de facto fazia ruir os alicerces da física aristotélica e da astronomia ptolomaica-aristotélica.

Galileu Galilei (físico, matemático, astrónomo, escritor brilhante que comentou, por exemplo, Dante Alighieri) para explicar o movimento uniformemente acelerado e as leis de oscilação dos pêndulos, aprofundou a via aberta por Aristóteles, entrelaçando as observações experimentais (sensoriais) com a matemática e sendo considerado o fundador do "método experimental". As concepções galilaicas sobre o movimento e sobre os astros (nomeadamente a Lua) faziam ruir os alicerces da física aristotélica e da astronomia ptolomaica-aristotélica.

Isaac Newton (físico, matemático, astrónomo, astrólogo, teólogo) enuncia a lei da gravitação universal e as 3 leis de Newton, desenvolvendo inúmeros aspectos das teorias matemáticas, por exemplo, criando o "cálculo infinitésimal". É considerado o pai da "mecânica clássica", só ultrapassada no século XX por Albert Einstein, que restringe o alcance das teorias newtonianas para determinados parâmetros da velocidade.
Newton afirmava que "não fazia hipóteses", querendo significar que as suas leis eram a adequação exacta entre a matemática e as observações experimentais, e, por consequência, o retrato fiel da realidade.

Voltando atrás para não perdermos o fio à meada, comparar o chamado "período do Terror" da Revolução Francesa - sensivelmente entre 1792 e 1793, em que Robespierre está aperreado pelos girondinos montanhistas (a facção ultra dos revolucionários) e ladeado pelo jovem general Napoleão (que virá a revelar sonhos  imperiais e será, em França e além fronteiras, um divulgador da versão jurídica burguesa da Revolução Francesa) com os genocídios, crimes, torturas massivas e caso a caso, as ocupação de territórios, a colonização forçada, as aculturações brutais, durante 7 séculos - sensivelmente do século XI ao século XVIII - sempre "in nomine dei", é já uma enorme concessão que fazemos ao Terror que emanava do Vaticano.

E não apenas pela enorme diferença no tempo, mas também pelo tipo de torturas perpetradas.
Sabiam que, entre as torturas medievais, as chicotadas, os linchamentos, os enforcamentos, as decapitações pelo machado, as crucificações de cabeça para cima e de cabeça para baixo, a deformação das diferentes partes do corpo humano e do esqueleto, durante dias, em postes de tortura adequados para o efeito, o assar os "infiéis"em pilhas de lenha para gáudio das multidões,  o enfiar a cabeça humana em gaiolas onde se soltavam ratazanas esfomeadas??... Para não falar de espectáculos mais raros, pela sua envergadura, como fritar centenas de seres humanos, todos ao mesmo tempo, em enormes frigideiras, que exigiam praças públicas ainda maiores e que atraíam, naturalmente, multidões ululantes. Uma vera pedagogia de massas em directo, ao vivo, semi-vivo e completamente morto. (Ainda não tinham sido inventados os filmes de terror norte-americanos da série GM (Ganda Me.da) , os jogos de guerra "paint-ball", e "as casas mais vigiadas do país" teresa guilherme...)

E, já agora, sabiam que, na época, a guilhotina era considerada um instrumento de morte relativamente "limpo" porque separava a cabeça do corpo de um só golpe, evitando que o carrasco tivesse de repetir as machadadas para obter o mesmo efeito?!...

Aliás, a forma como o rei Louis XVI é preso (está minuciosamente registada, dia a dia e hora a hora) documenta bem o temor reverencioso que a maioria dos franceses sentia pelo representante de deus na França, depois do Papa e do supremo Cardeal gaulês. A mesma reverência não acompanhava a rainha Maria Antonieta, que era apodada popularmente de "la putain" ( na fuga, era acompanhada por um dos seus favoritos, o último). 

O homem que reconhece o rei em fuga, Jean-Baptiste Drouet, só o persegue porque a isso foi obrigado por uma municipalidade, só o detém - escondido debaixo das saias de uma aia - depois de alguns dias de perseguição a cavalo (numa ponte, em Varennes), a sua detenção formal só se realizou 3 dias depois, a sua destituição deu-se 3 meses após, em Paris, e foi guilhotinado 4 meses mais tarde, em 21 de Janeiro.1793.
A vida de Jean-Baptiste Drouet, herói involuntário de uma aventura para a qual o empurraram e que tentou evitar, conheceu tantos altos e baixos como as flutuações da política francesa nos anos a seguir. A sua vida foi transcrita no século seguinte (1860) em narrativas de Alexandre Dumas ("Memoires d'un Médecin" e "La Route de Varennes"), vida filmada por Ettore Scola ("La nuit  de Varennes") e objecto de relatos históricos de Roger Vaillant quando da sua adesão ao PCF (primeiro em folhetim, 1937, depois em livro, em 1947).

Isto para concluir que as Ciências Humanas, apesar dos seus princípios conceptuais e metodológicos, são sempre enformadas pelos princípios ideológicos de quem as realiza (até na determinação do que se considera "um facto") e é preferível que estes princípios ideológicos sejam claramente explicitados pelos investigadores e não tentem apresentar-se como um observador equidistante, algures a observar-nos de uma estrela Syrius.
E, de entre as Ciências Humanas, a História é particularmente sensível aos factores ideológicos, pois estamos habituados a lê-la redigida pela pena dos vencedores.

Termino por aqui... exausto! Aguardo que este longuérrimo discurso Vos sirva para alguma coisa, dado que a mim me custou tanto cingir-me ao essencial e não me perder por atalhos.

Amplexos débeis, mas afectuosos deste que se assina 

O Leopardo   



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1 comentário:

  1. Bem dito! Obrigado pela lição de filosofia e história!
    com amizade

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