Reflexões do Leopardo

Reflexões do Leopardo
Reflexões do Leopardo

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O Festival de Teatro de Almada acolhe o Estado Sionista de Israel

O Festival de Teatro de Almada e o seu director Rodrigo Francisco acolheu ontem a Companhia de dança Kamea , numa coreografia significativamente intitulada "Neverland" ( Terra do Nunca" ).
Uma parte do público, na qual me integro, recusou-se a assistir ao espectáculo. As razões não têm a ver nem com a qualidade, aliás superlativa  , dos 12 bailarinos ( já dançaram no Festival no ano anterior ), nem por serem de etnia judaica ( uma parte deles não serão sequer de ascendência judia ) , nem por motivos de ordem religiosa, nem uma censura à liberdade criativa da Companhia - como Rodrigo Francisco pretende fazer crer numa miscelânea de argumentário - , mas porque este ano a Companhia de dança Kamea vinha em representação do Estado Sionista de Israel ( o Ministério da Cultura israelita-sionista astuciosamente atribuiu um prémio à Kamea, em 2014 ) . 
É óbvio que para o Estado Sionista de Israel , que há décadas leva a cabo políticas e guerras de desestabilização do Médio Oriente, nomeadamente do Estado Palestino, onde tem conduzido guerras contínuas e terrorismo de Estado numa política de genocídio ( equiparável à que os hitlerianos inflingiram ao Povo Judaico durante a 2ª guerra mundial ) ser representado no Festival de Almada, com o prestígio internacional de Teatro de Esquerda que adquiriu com justiça, por uma Companhia de Dança com tanto mérito, corresponde a um lavar de cara da montanha de atrocidades que tem cometido.
Lamentável que isto que é evidente para a generalidade do gentio com um abc politicó-social, o não seja para o director do Festival de Teatro de Almada.

Ontem, tive ainda a sorte ( para além de participar no "workshop" com Juni Dahr ) de assistir à peça "Golem" de uma companhia inglesa, onde 6 actores se confundem com "cartoons", sequências filmadas, música estridente, num ritmo frenético, que desmonta e ilustra os actuais meios de controlo da população através dos "mírdia", das internets, dos mega-smartphones.
O espectáculo arrancou trovoadas de palmas ao público, colocou-se decerto na fila dos vencedores do Festival. E eu voltarei, noutra edição, de novo a ele para mais alguns comentários de segundas núpcias.


                                                 Resultado de imagem para fotos ou imagens da peça de teatro "Golem"


Saudações cordiais do 

Leopardo

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Curtas do Festival

É claro que quando falo de Festival só posso estar a referir-me ao Festival de Teatro de Almada.

- o Curso de Teatro da dinamarquesa Juni Dahr - intérprete da mui premiada peça "Hedda Gabler" , de Ibsen - espantástico !! A dinamarquesa é danada, empanturra-nos com ensinamentos, trabalho ... e, ainda por cima, com prazer ! 

- a peça "Topografia" : já vi pior .

- o espectáculo "Karl Valentim Kabarett"  , no estilo dos muito populares "cabarets alemães" da Companhia Teatro do Eléctrico, encenada por Ricardo Neves-Neves e com a colaborações de actores/actrizes exteriores à Companhia - estejam atentos a uma fabulosa mangueira dourada ! : mais um sério candidato a vencedor do Festival !

- a peça "Svaboda" ( palavra russa que significa "liberdade" ) com 3 superlativos actores naquele horrível teatro da Incrível Almadense, cria uma atmosfera opressiva, concentracionária, na qual os regimes argentinos e a "nomenclatura" soviética são escalpelizados impiedosamente. Os actores: Pablo Chao, Anibal Gullmi, Maia Lancioni. A cenografia, nível superior, de Pia Drugeri. Gaita !, outro sério candidato  a vencedor do Festival !...


Saudações fraternas

deste atarefado Leopardo

que tem que ir escavar para a Juni

domingo, 9 de julho de 2017

Do Panfleto Político à Peça de Teatro

A RDP/Antena 1, a partir das 12 horas de hoje, 9 de Julho.2017, emprestou os seus microfones a dois notáveis comentadeiros da praça, José Milhazes e o ex-embaixador Cutileiro para abordarem o recente encontro pessoal entre Donald Trampas e presidente russo Vladimir Putin.
Milhazes , que tem passado os últimos anos da sua vida como jornalista-correspondente na Rússia (esperemos que fale melhor o russo do que fala o português !), nada sabia sobre o encontro tirante o facto de que este tinha demorado 2 horas em vez dos 30 minutos previstos, portanto norteou os seus comentários por um anti-comunismo paleolítico e pela sua imaginação anorética.
O ex-embaixador Cutileiro taxou de "dirigentes sérios" Ronald Reagan e Gorbachov . Reagan que permanece como um arquétipo das Administrações "cowboys" de extrema-direita sem afivelar a máscara nazi. Gorbachov que ajudou a entregar o Regime Soviético ao Capitalismo , Górbi , em regra sediado em Itália, que hoje faz pela vidinha vendendo conferências a 30.000 €urios a peça. Como Cutileiro também nada sabia de substantivo, foi o entrevistador que verteu a única notícia verdadeiramente relevante : a República Popular da China quadriplicou a sua actividade comercial com a Coreia do Norte.

Após esta introdução - que talvez ajude a enquadrar mais o que se segue do que aquilo que pode parecer - passemos então ao Festival de Teatro de Almada e às duas peças que lá vi ontem.
A primeira, "Operários" da Companhia Útero , com cadastro já conhecido, é fácil e difícil escrever sobre ela.
Fácil porque é simples descrever que são duas espécies de bailarinos em palco que se agitam como se sofressem de epilepsia aguda, que existe um belo corpo feminino que exibem o menos que podem, que todos se desnudam e põem os sexos bem em evidência, que arrastam baldes de água com os quais vão encharcando as tábuas, que atiram cobertores ensopados uns aos outros, que ora um, ora outro dos bailarinos carrega o corpo feminino como se ele estivesse morto, que existe um terceiro homem que transporta garrafões cheios de água e foca por instantes as luzes, que na cena final estão espalhados pelo palco um modelo de veleiro em madeira, um bote de borracha dos fuzileiros, um boneco de plástico a representar um boxeur, duas bandeiras portuguesas igualmente ensopadas, um suposto vaso de flores feito com uns gravetos e rolos de papel higiénico cor-de-rosa. 
Difícil de escrever porque ninguém percebe qual a relação entre o que vai acontecendo em cena e a exploração dos operários em geral, e a exploração dos operários, em particular, nos estaleiros da Lisnave. Difícil de explicar que alguns trechos de boa música não proporcionam obrigatoriamente uma boa coreografia e que uma coreografia, mesmo quando boa, não dá origem necessariamente a um bom espectáculo teatral . É penoso dizer à Companhia Útero, que, por melhores que sejam as suas intenções, a sua produção entra na categoria dos panfletos políticos e que, mesmo como panfleto político, é ilegível.
O público do Festival de Teatro de Almada , usualmente muito generoso no acolhimento prestado às obras representadas no seu Festival , vaiou "Operários" !, coisa que eu nunca tinha visto acontecer em décadas de Festivais almadenses .

O outro espectáculo, "Rumor e alvoradas", representado pelo colectivo belga Raoult Collectif , desmonta a forma de trapacear dos "mírdias" num libelo satírico contra o pensamento único neoliberal, que foram repescar ao chavão cunhado por Margareth Thatcher, "There is no alternative" ( TINA ) ou, em portuga, "Não existe alternativa"
Cinco actores em palco, sem nenhuma actriz, representando homens da Rádio, "mas somos todos a favor do feminismo !", personificando as posturas politicó-sociais que vão dos ex-trotskistas de Maio de 68, passando pelo amante suave das espécies em extinção e da ecologia, ao defensor das empresas privadas de média estatura, ao propagandista do liberalismo político-económico ( porque isso das nacionalizações, do colectivismo  forçado, provou que não resulta, que conduz a um totalitarismo de esquerda" ) trocam opiniões e confrontam-se aos micros da rádio, na sua última emissão, pois foram informados por um telex, em cima da hora, que o seu programa foi encerrado e, em princípio, estarão todos desempregados.
Além das ideologias em confronto, instala-se também entre eles a suspeição, a suspeita de que podem estar a ser traídos por dentro. E tudo isto é tratado num diálogo de associações delirantes e cómicas, que a finalizar simula entrar em diálogo aberto com o público para demonstrar "que não existe alternativa".
O público do palco da D. António da Costa obrigou os 5 actores a voltar à ribalta numa trovoada de palmas.
Em minha opinião de leopardo canhestro pode encontrar-se no "Rumor e alvoradas" um sério candidato a vencedor do Fesival.

Hoje, dia 10 de Julho, o Festival voltou a repor "A perna esquerda de Tchaikovski", representada-dançada pela bailarina clássica Barbora Hruskova, interagindo com o piano de Mário Laginha, que voltou a demonstrar, se preciso fora, que o bailado pode ser excelente teatro. Facto que o público amplamente premiou.
Creio que até cá o Leopardo de outras era glaciares, foi atingido, pois comecei a buscar... a buscar ... não sei o quê, não propriamente gamos ou gazelas para alimento, mas, desculpem o desconchavo, a buscar talvez elevar-me, voar, acompanhar a viagem cíclica e crónica das andorinhas - saberão elas para onde ?... - viagem de prazeres, dores e mortes, viagem para a qual não tenho asas, viagem de catalépsias, de intermitências de esperanças e desesperos, viagem na qual talvez descortine a Estrela Polar, a Via Láctea ou, apenas que as sonhe, o que é quase o mesmo... o que é quase... o que é... o que é o quê ?...         
  


PÚBLICO - Resultado de imagem para fotos ou imagens do espetáculo "A perna esquerda de Tchaikovski



Saudações confiantes

na viagem colectiva do Bando

Leopardo 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Moçambique frenético

O Festival de Almada apresentou ontem a peça "Moçambique" da Companhia Mala Voadora , a partir de um texto e da direcção de Jorge Andrade. E, se não a viram, percam a esperança de a ver este ano, pois o espectáculo foi filho único.
A peça tem um ritmo frenético, onde os curtos diálogos alternam com danças de ritmos martelados, exaustivos, e canções de uma magnifica voz ( ambas da responsabilidade de Bruno Huca ) , projecção de imagens e filmes da época, tudo enfarpelado num vestuário muito criativo ( responsabilidade de José Capela ).
Em 1 hora e 20 minutos, o espectáculo narra-nos pedaços de estórias reais onde a autonomia de um território se cruza e entrelaça com vidas e carreiras profissionais, controvérsias ideológicas (pró-soviéticas, pró-maoistas, pró-revisionistas, pró-capitalistas, pró-russas, racistas), questões de poder, de propriedade, de estatuto. O que vai acontecendo e o que cada um desejaria que acontecesse. As tranquibérnias económicas, políticas, bélicas, ideológicas que comandam o "real" aparente.

Para além dos actores e criadores já mencionados, destaco ainda os actores/actrizes Isabél Zuaa , Jani Zhao , Matamba Joaquim , Tânia Alves , Welket Bungué que verteram nas tábuas do palco grande da Escola Don António da Costa o seu suor e o seu entusiasmo. A paleta dos seus nomes e os matizes das suas epidermes contribuíram para esclarecer intuitivamente os personagens que interpretavam. 

A estória real que deu origem à narrativa contada era de uma simplicidade estonteante ... e excruciante para uma mentalidade europeia: um casal dono de uma propriedade com 4.000 hectares, produtora de tomate (para se ter um termo de comparação, em Portugal continental talvez a antiga Companhia das Lezírias atingisse os 1.000 hectares e era o maior latifúndio continental...) , perde subitamente os dois filhos que tinha e propõe à sua irmã da "metrópole" que lhe ceda, por compaixão, um dos filhos, filho que virá a ser o herdeiro dos milhares de hectares de tomate. 
A estória real ultrapassou a fantasia - com o filho cedido por compaixão, sempre a asseverar que só lhe interessava o Teatro, que espatifaria a herança até ao último tomate em realizações cénicas - dado que, uns anos após, o latifúndio dos tomates foi todo destruído pelo maior furacão ocorrido em Moçambique no século XX, ficando reduzido a um monte de sucata sem préstimo e sem valor fiduciário. 

Julgo que é uma obra teatral merecedora de ser vista e reflectida com tranquilidade. A ironia começa na Natureza ou nos olhos que interrogam a Natureza ? A estabilidade faz parte da Natureza ou é uma mera aspiração humana ? Uma determinada relação causal entre os factos existe mesmo ou é uma construção mental para sossego humano ?

O público que assistiu ao espectáculo acolheu-o calorosamente com risos e aplausos, mas não duvido que certos "puristas" o rejeitarão, acusando-o de "kitch", de que nenhum popular moçambicano veste com a elegância sofisticada dos actores, que as "marrabentas" bailadas nas calçadas do Maputo , da Beira, no meio das florestas do planalto dos Macondes, nas clareiras à beira do Lago Niassa pouco têm a ver com o que é dançado no palco para além do vigor que todas empregam.
É verdade que qualquer miúdo do Maputo ou da Beira dá dez a zero aos bailarinos da Mala Voadora em saltos e reviravoltas ritmadas, explícitas no erotismo e na pornografia ( putos de pernas tortas, putos que não beberam leite suficiente na infância e que a passaram escarranchados às costas das mães, enconchados nas capulanas ) , que as danças litúrgicas dos macondes ou dos nyanjas ( habitantes do Lago Niassa ) , tudo populaça que só usava chinelos de borracha e t-shirt's de algodão porque as autoridades coloniais os obrigavam.
Todavia, o que é criativo na Companhia da Mala Voadora é que, sem os copiarem, os evocam, os tornam presentes no nosso imaginário.
O genial Aristóteles, há 2 mil e trezentos anos atrás, definiu a Arte como "mimesis", termo grego que significa "reflexo". 23 séculos após, as contribuições de Tomás de Aquino, Kant, Marx, Lenine, Gramsci  empurraram o conceito de "reflexo" para novos planos e, hoje, perguntamo-nos o que "reflecte" a Arte ? O real concreto, exterior ao sujeito que observa? Ou reflecte a estrutura interna do sujeito que observa ? Ou reflecte a ordem social da classe que observa a Natureza e a Sociedade na qual se insere ? Ou reflecte a acção humana necessária para transformar a Sociedade e a Natureza a favor da Humanidade ? Ou reflecte, dentro de cada classe, a visão de sub-líderes determinados pelos seus trabalhos profissionais ? 
Quero eu, Leopardo, com esta discursata epistemológica, justificar que a Mala Voadora possui todo o direito artístico de reintrepertar no vestuário e na música o riquíssimo património artístico, ancestral, moçambicano, desde que nos ajude a penetrar na compreensão do que é Moçambique.

A nível planetário foi inesperado saber pelo noticiário que a primeira-ministra da Polónia, Beata Szydlo se recusou a apertar a mão a Donald Trampas . Além de inesperado foi divertido, pois Beata Szydlo pertence ao Partido Nacionalista "Lei e Justiça" , partido de extrema-direita , que ganhou folgadamente as eleições em 2015 e que se definem como "euro-cépticos", "anti-refugiados", "anti-Rússia" e que reclamam uma base permanente da NATO dentro do seu País.
É caso para comentar "como são estranhos estes polacos... vá-se lá entendê-los !..." Todavia, enquanto se zangam as comadres, aprendem-se umas verdades...


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Hoje, fico-me por aqui, 

confiante e sorridente,

Leopardamente 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Abriu o Festival ... da Jamaica !

Como se sabe, começou o Festival de Teatro de Almada que é uma das referências cimeiras do Teatro Ibérico, só encontrando equivalentes em França, nomeadamente no Festival de Avignon.
O Festival de Teatro de Almada está intimamente ligado à personalidade do falecido director e encenador Joaquim Benite, figura sem a qual a História do Teatro Português nos séculos XX e XXI não seria a mesma. Benite que sempre obteve da Cãmara de Almada a compreensão e as verbas que lhe permitiram atingir o alto nível alcançado. 
Desde que Joaquim Benite faleceu a 5 de Dezembro de 2012, as suas funções de director e encenador do Teatro Azul ( hoje Teatro Municipal Joaquim Benite - TMJB ) e de líder do Festival têm estado entregues a Rodrigo Francisco, jovem encenador . O público habitual, fiel ao seu Teatro e ao seu Festival, numa expectativa favorável à evolução das obras em cena, aguarda que elas mantenham o claro perfil de identificação com os valores ideológicos da Esquerda , surgindo vozes nesse público a afirmar que se manifestam sinais contraditórios aqui e ali.

Este ano o Festival abriu com uma verdadeira chave de oiro "Apre - melodrama burlesco" ( ou, no título gaulês, Bigre - mélo burlesque )  apresentado por uma Companhia Francesa onde se destacavam os nomes de Pierre Guillois , Agathe L'Huillier , Olivier Martin-Salvan
Foi de facto espantoso assistir a uma peça, sem uma palavra de tradução, onde o público do enorme auditório ao ar livre, na Escola Don António da Costa, auditório à cunha !, interrompeu variadíssimas vezes o espectáculo para rir e aplaudir às escâncaras. 
A minha incompetência leopardesca é incapaz de sintetizar, sem escrever um romance, uma obra que se desenrola durante 1 hora e 25 minutos, na qual são sugeridos, numa lógica prenhe de "nonsense", as vivências num prédio de tijolo e tabopan em desconstrução, prédio que ameaça ruir a qualquer instante.
A mim só me recordava o caso relatado na RDP/Antena 1 do Bairro da Jamaica situado na Freguesia do Seixal. Os cancros do Bairro da Jamaica são infindos :

- os esgotos não funcionam e a urina e as fezes diluídas infiltram-se nas paredes das casas;
- existem milhões de mosquitos atraídos pelos eflúvios infiltrados;
- os apartamentos não proporcionam qualquer privacidade, ouvindo-se e participando no que ocorre nos vizinhos do tabique ao lado;
- coexistem no Bairro uma caldeirada de etnias culturais - angolanos, moçambicanos, são-tomenses, cabo-verdianos, guineenses, ciganos - que, não raro, entram em conflito;
- os prédios nunca possuíram elevadores e pelos vazios que lá estão em seu lugar caem pessoas uma volta por outra; 
- cafés e restaurantes de "minies", frangos assados e aguardentes são improvisados nos tectos das casas, avolumando os riscos de desabamento;
- serve de exemplo às situações sociais o caso do professor de português que veio de Angola para ensinar o português aos migrantes angolanos e acabou a trabalhar na construção civil em Portugal ;
- quem baptisou o Bairro foi uma banda musical de hip-hop & liambas que considerou que Jamaica era o nome que lhe quadrava com o estilo.

Pois o "Apre", sem nunca ter lido notícia do Bairro Jamaica , foi capaz de ter representado os perfis dos infindáveis "bairros jamaicas" que abundam pelo planeta fora. Pela minha parte candidato-o já a uma das peças de teatro vencedoras do Festival.

Com pena, o mesmo não posso dizer da "História do Cerco de Lisboa" , peça encenada por Ignacio Garcia inspirada num notável romance de José Saramago . Ignacio Garcia reduz o romance de Saramago a um ensaio filosófico sobre as meta-linguagens, tema característico da epistemologia ( Filosofia das Ciências ), nomeadamente sobre a meta-linguagem da História, disciplina das Ciências Humanas mais influenciada pelos valores ideológicos de quem a pratica.
O mais suave que posso usar para caracterizar esta peça é que ela é uma não-peça, é um ensaio filosófico para divulgar uma série de lugares-comuns bem conhecidos de quem estuda epistemologia ( o meu caso ), divulgação pretensiosa de quem descobre pela primeira vez o Brasil e longe do acolhimento compreensivo da maioria do público ( o que pôde aperceber-se pelos aplausos apenas corteses ). Sobre mim teve um efeito soporífero, passando intermitentemente pelas "brasas".  
O que de melhor posso teclar sobre a peça, é que os actores realizaram interpretações óptimas, decerto dando expressão ao que lhes tinha sido pedido, e animando por instantes o discurso filosófico. Louvo igualmente os cenários de José Manuel Castanheira que, concisamente, traduziram o debate meta-linguístico representado.

A milhares de quilómetros do Festival de Teatro de Almada , os EUA negaram o visto de entrada a seis jovens raparigas afegãs que iam participar num campeonato de robótica e a Administração Trampas declarou que não tolerará mais lançamentos de mísseis norte-coreanos e que exercerá represálias económicas sobre os países que mantiverem relações comerciais com Pyongyang .

De forma que é quase um consolo tomar conhecimento que a dona Chimone de Oliveira vai lançar um DVD sobre a sua vida. Espero que seja um retorno à "Desfolhada" a "quem faz um filho, fá-lo por gosto", embora me pareça um pouco tarde para quem andou nas quadrigas eleitorais do psd( para regredir no tempo era bem preferível ouvir o Fernando Tordo abrir os curros à "Tourada" do Ary dos Santos ). Todavia, sempre é melhor do que sujar os sentidos relanceando-os ao de leve pela "obra intimista (sic!) a partir de estórias reais" que vai ser lançada por dona Tareja Guilhermosca . É que ele há nódoas e nódoas !...   


PÚBLICO -  


Saudações confiantes 

na luta colectiva organizada

Leopardo        

terça-feira, 4 de julho de 2017

Fogos em Combustão

Os EUA confirmam o disparo de um míssil norte-coreano de médio alcance e o Presidente Trampas , de imediato, critica o facto (já se sabe que só o Estado cowboy possui legalidade e mísseis benéficos que pode atirar à tola de quem o contraria...).

A Protecção Civil alerta para a continuação do perigo de novos fogos na floresta.

Quanto ao caso das armas de fogo e explosivos roubados de Tancos  ( número de armas tão extenso e variegado que alguém comentou com graça no Facebook que só um camião TIR as transportaria todas de uma só vez ... ) a investigação em curso afirma que houve ajuda do interior do quartel.
O sr. coronel presidente da AOFA - Associação de Oficiais das Forças Armadas - declarou que aqueles paióis de armamento estão na prática indefesos visto que as câmaras automáticas de vigilância foram reduzidas, estão inoperacionais, as sentinelas não têm balas nas câmaras, as câmaras estão lacradas, só possuem um carregador, e se a sentinela por acaso suspeitar de um assalto e disparar - e não for nos entretantos morto - arranja um sarilho, pois terá de provar que o fez legitimamente e mui provavelmente indemnizar do seu bolso o presumido invasor do espaço do aquartelamento.

Para acompanhar a onda dos fogos, a famelga Mello dona do Hospital CUF, privado, em Lisboa, vai abrir outro hospital, também  privado, em Sintra a partir do próximo ano. Trata-se, portanto, de um fogo posto - neste caso económico - que, em seu devido tempo, seremos informados de que forma o Orçamento do Estado terá de auxiliar.

Pesarosos, obedientes e subservientes, os "mírdias" nacionais badalam o defuntamento súbito do advogado e consultor fiscal Medina vai de Carreira . O M.v.d.C. foi exactamente aquele que se escondeu no PS até 1978 - não fosse o diabo vermelhusco tecê-las e pôr a malta a marchar direita ao Socialismo - , porém precipícios socializantes ultrapassados o Medina às carreiras logo se pisgou para praias mais a seu jeito, apoiando a candidatura à Presidência do Escavo Silva em 2006, estando envolvido no maior esquema de fuga ao fisco e branqueamento de capitais em Portugal , apodado de "Monte Branco" , do qual foi ilibado por falta de provas e graças aos bons serviços de advogados obesos de pasta e papel. Nos entrementes, M.v.d.C. integrou o VI Governo Provisório, o 1º Governo Constitucional sempre pelas pastas das finanças e do tesouro, materiais onde se auto-proclamava basto entendido.
Mas quem o queria ver era com a famelga Mello da qual era colher para todo o serviço, nomeadamente naquelas coisas dos hospitais privados. 
Agora ascendeu de vez "aos altos assentos etéreos", que os deuses tudo perdoam. Uma parte da Nação enche-o de coroas de flores para tornar o caso definitivo : evidentemente os Mellos , os Nogueiras Leites , outro serviçal dos Mellos , o PS porque hipocrisia "oblige" .

Eu, Leopardo, posso prometer-lhe que não irei ao enterro, mas tenho pena porque agora como me entretenho nos tempos de canícula ?... A medalha de bronze da Selecção Nacional, o Woody Allen a dar um concerto de Jazz no Coliseu de Lisboa, o Salvador Sobral de boca amordaçada para não proferir inconveniências verdadeiras, duvido que seja suficiente para apagar os fogos que se aproximam !



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Todavia, saudações confiantes

na luta colectiva, organizada, amplamente debatida

do Leopardo         

domingo, 2 de julho de 2017

A Caçadora e a Águia

O título desta reflexão é igualmente o título do filme "A Caçadora e a Águia" em cartaz nos cinemas de Lisboa. Afirmando-se inspirado numa estória verídica, a película relata-nos em detalhes preciosos uma parte da vida de uma adolescente mongol, Aisholpan Nurgaiv, criada nas altas e geladas montanhas Altai,  - sujeitas a ventos selvagens, tempestades de neve e gelo súbitas, temperaturas muito abaixo dos zero graus centígrados - , rapariga que desde mui tenra idade manifesta uma atracção irresistível para se dedicar à caça com águia - de raposas, coelhos, cabritos selvagens, ovelhas desgarradas, enfim tudo o que possa fornecer proteínas e gordura que ajudem os seres humanos a sobreviver naquelas paragens inóspitas ( donde partiu o lendário Gengis Khan ) .

O insólito do caso, é que Aisholpan pertence a uma típica família nómada de mongóis , com vários filhos e filhas, famílias nas quais os papeis sociais estão distribuídos desde a nascença : os rapazes são caçadores (com armas de fogo, arcos e flechas ou com águias - a mais honrosa de todas) ; as raparigas limpam as tendas ou as casas de adobe - possuem duas residências, conforme as alturas do ano - , fazem a comida, o chá, as panquecas, tratam das peles que lhes forram o vestuário vistoso, colorido, onde os kispos de penas, as camisolas, casacos de lã, cachecóis , enormes gorros em pele se misturam sem preconceitos. Ah, claro, as raparigas estão destinadas a casarem bastante cedo com parceiros negociados pelos pais.
Mas, as raparigas não podem caçar, muito menos com águias, tipo de caça que exige coragem, força física, longa aprendizagem, uma ausência prática do medo, grande resistência - chegam a ter de cavalgar 150 quilómetros num dia de tempestade, com uma águia de 7 quilos apoiada num braço !

No caso de Aisholpan foi-lhe possível seguir a sua inclinação porque o pai, Rys Nurgaiv (muito
provavelmente seu pai na vida real) lhe reconhece as qualidades necessárias e a forte determinação - mais que aos irmãos do sexo masculino - e a mãe, silenciosamente, não contraria a vontade da filha, pois pensa que ela sai ao pai e não a si, além disso gostaria de saber a filha feliz.
O problema é levado a sério, de tal forma que é colocado ao Conselho Familiar -  onde os mais velhos detêm uma ponderação maior - e este opõe-se. Consideram que a rapariga não é capaz, sobretudo caçar com águia, e, acima de tudo, vêem na pretensão uma ameaça à ordem social estabelecida. Imagine-se, caso excepcional, que a Aisholpan consegue ? Imediatamente se converteria numa heroína para a comunidade mongol feminina, e ele era ver surdir debaixo das pedras uma fila de pequenas "aisholpans".

A ameaça à ordem social estabelecida é levada tão a sério que o Conselho Familiar encaminha a coisa para o Conselho do Clã. E o julgamento é idêntico. O pai Rys Nurgaiv deve dar um NÃO absoluto e definitivo à pretensão da filha. Mas, a  responsabilidade última do "Não" será do pai (o qual demonstra pela pretensão da filha que não a educou muito bem...).

Rys Nurgaiv matuta mongolmente no caso durante duas semanas. E decide inesperadamente, contra tudo e todos, que submeterá a filha a provas.
Assistimos então a essas provas. A adolescente sustenta uma águia no braço, protegido por uma luva, com uma das asas da águia por cima do seu ombro. Tira-lhe o carapuço de cabedal que lhe venda os enormes olhos e vai-lhe dando a comer pequenos pedaços de carne crua - operação que lhe pode custar a perda de um dedo, se manifestar medo . Aisholpan executa tudo isso com alegria, enquanto fala doce e ininterruptamente com a ave, interpretando-lhe os sentimentos. 
Depois passa ao treino longo, paciente, de habituar a águia à sua voz e a perseguir um coelho na planura, de um morro elevado, por fim a perseguir um simulacro de raposa. Treino que implica falhanços e a superação dos falhanços tanto para a ave como para a caçadora.

Aisholpan é ambiciosa - uma verdadeira Cristiana Ronaldo dos caçadores com águia - e propõe ao pai Rys entrar no mais famoso concurso de caçadores que se realiza todos os anos e que atrai ao planalto mongóis de todas as partes - esta Mongólia confina com a Mongólia Chinesa - e turistas estrangeiros, gentes que são uma fonte económica valiosa.
O pai Rys avalia a proposta, o escasso tempo de preparação, a necessidade de ir roubar uma cria de águia aos cumes xistosos, gelados das montanhas Altai, de onde provêem as águias com mais garantias de sucesso.

Resumindo e arredondando ( que a pachorra dos meus leitores é menor que a dos mongóis ... ) , contra todas as expectativas a adolescente Aisholpan, ser humano do sexo feminino vence todas as provas, vence o Concurso de Caçadores, mesmo os mais experimentados, alguns que averbam várias vitórias.

Pode extrair-se do filme uma apologia óbvia à causa do feminismo - o proletariado sempre pior pago e com menos direitos na História Humana - , mas também se pode fazer a leitura de que, por mais altos, gelados e agrestes que sejam os Altais, o mundo dos proletas, dos patuleias triunfará mais cedo que tarde.

Embora "A Caçadora e a Águia" já tenha ganho uns prémios e seja candidato não sei a que famoso festival, não estou seguro se marcará a História do Cinema. A minha memória responderá por mim daqui a uns anos...

Em todo o caso sempre é melhor reflectir sobre ele do que sobre as intrigalhadas que envolvem o "futebolês" luso, que até já bruxarias chamam à baila. Ou sobre as sucessivas "gaffes" e mentirolas do sr. Passaralhos Coelho que surde mais vezes nas rádios e "pantalhas" do que o  oleoso chefe Costa . 

E talvez o filme nos ensine mais sobre a Administração Trampesca e as outras Administrações "cowboys"  do que pode parecer... 









Saudações confiantes

na luta colectiva, organizada, debatida 

do Leopardo