Creio que a 7 de Outubro do ano em curso, portanto há 5 dias atrás, Condolezza Rice retirou o seu apoio ao candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, por considerar que o candidato se tinha excedido para além do que era admissível, insultando toda a condição feminina.
Desta postura política de Condolezza Rice extraiem-se vários significados:
- por um lado, significa que, até àquele momento, nenhuma das afirmações tonitruantes, trauliteiras, do político norte-americano mais abertamente nazi (mesmo mais que o defunto Barry Goldwatter) a tinha chocado;
- por outro lado, significa que foram as convicções de Trump , ao nível da cueca, nomeadamente os seus "mimos" de que "sempre que tinha na assistência umas carinhas larocas que se desejavam aproximar do Poder aproveitava para as beijar, desejando em seguida saltar-lhes para a "rata", e ao negar o direito ao aborto mesmo a mulheres que tivessem sido violadas por entender que "as mulheres podem sempre fechar as pernas se o quiserem" , foram estas "pérolas" regurgitadas da concha trumpesca que levaram a personalidade republicana Condolezza a reconsiderar e a pensar que Trump tinha ultrapassado a linha vermelha que separa o que poderá ser pensado do que deve ser dito.
Como é público, Condolezza Rice não é uma figurante política de segunda fila. É uma "notável" do Partido Republicano ("os Elefantes"). Foi a 66º Secretário de Estado ( o equiparável ao nosso ministro dos Negócios Estrangeiros ) - entre 2005 e 2009, com George W. Bush - e Conselheiro da Segurança Nacional ( o equiparável ao nosso ministro da Defesa Nacional ) novamente com George W. Bush, em 2011, sendo o segundo afro-americano a deter o cargo, depois do varão Colin Powell.
Condollezza Rice pode apresentar a desculpa de ser portadora de uma cabeça apatetada, propênsica à palhaçada como Trump ?... Não senhora, antes pelo contrário. Muito consciente do seu estatuto de mulher negra, filha de um pastor presbiteriano, na sociedade estado-unidense, determinou-se a ser a melhor aluna nos cursos onde investiu desde criança. "Terei que ser sempre duas vezes melhor que os outros" confessou nas sua notas pessoais. O que alcançou com pleno êxito. Foi a melhor aluna do ensino liceal. Bacharelou-se em Direito em Denver, em 1974, doutorou-se em Denver, em 1981.
Talvez por influência parental ( o seu nome é uma corruptela do "nick name" Condi, pelo qual era conhecida, e de "dolcezza", palavra italiana que significa "doçura" ) , CondollezzaCestudou piano desde criança, já apareceu ao piano no Constitution Hall, em 2002, projecta tocar, nos meses próximos, uma sonata para violino de Brahms - um dos paradigmas dos músicos românticos - , transcrita para piano, no Carnegie Hall, acompanhada pelo violoncelista Yo-Yo Ma. É obra!...
Não imaginamos uma personalidade tão cerebral a marcar um concerto de tal envergadura, com um acompanhante de tal peso, numa sala tão carismática para o Povo Norte-Americano, para o transformar num enterro político-musical.
Curiosamente, sendo considerada bonita e elegante por muitos, Condollezza vive sozinha com um gato ( traços que partilha com Irene Flunser Pimentel, personalidade tão distante geograficamente ), não lhe sendo apontados namorados/as na devassa imoral dos "mírdia" cowboys. Talvez traços de personalidades dos que sonham aos poderes terrenos supremos...
Faz muito que defendo que a personagem Donald Trump é uma personagem de laboratório, criada a comando da mioleira do Grande Capital com o intuito de representar a personagem Hillary Clinton como uma democrata credível ( sem negar a Trump a sua contribuição pessoal de "clown" irreverente, arruaceiro, femeeiro, nazi ). E isto, porque estou convencido que o Grande Capital não é estúpido, entende que o Povo Norte-Americano não aceitará um Presidente obviamente nazi.
E quem é Hillary Clinton ? A actual candidata do Partido Democrático ( os "Burros" ) é, tal como Condollezza , uma mulher cerebral, que tem conduzida a sua carreira de acordo com o seu ideário ferozmente anti-comunista e de acordo com as suas ambições pessoais.
Hillary inicia o seu percurso político militando voluntariamente no Partido Republicano , denuncia uma fraude eleitoral cometida contra Richard Nixon ( o Ricardinho dos Truques Sujos, na gíria popular norte-americana ), integra a campanha eleitoral para a Presidência dos EUA de Barry Goldwater (!), o predecessor de Trump num nazismo entusiasmado, Goldwater que perdeu as eleições, em 1964, por uma das maiores margens de distância da História Norte-Americana nas corridas eleitorais à Casa Branca, contra o "democrata" Lyndon Johnson ( o mítico e charmoso John Kennedy tinha acabado de ser assassinado em Dallas, assassínio que, até hoje, sempre surge enevoado nas versões mais contraditórias, assassínio que foi acompanhado por dezenas de assassínios sequenciais que restam ainda por esclarecer cabalmente ).
Hillary troca o Partido Republicano pelo Democrático (os "Elefantes" pelos "Burros") em 1968, afirmando que considerava que "eram mais os Republicanos que a abandonavam a ela, que o contrário" , e sempre se tendo demonstrado uma anti-comunista assanhada.
Os dados biográficos da actual candidata à Casa Branca montam-se nestes carris: natural de Chicago ( 26 de Outubro de 1947 ), formada em Direito, doutorada pela Faculdade de Yale, casa-se com Bill Clinton em 1975, depois de o ter recusado umas 5 vezes, declarando que "o momento não era oportuno" (embora, já vivessem juntos há vários anos); apoiou as campanhas militares contra o Afeganistão e o Iraque. Opôs-se a uma parte das políticas externas e internas de George W. Bush. Foi eleita Senadora em 2000.
Como Secretária de Estado de Barak Obama defendeu as "primaveras árabes", o golpe militar na Líbia . As acusações do "hacker" australiano Julian Assange, acusações realizadas a partir da correspondência de Hillary , confirmam o que era óbvio e acrescentam que Hillary , enquanto Secretária de Estado de Obama aprovou a venda de armas ao Daesh - o denominado "Exército de Salvação Islâmico" , Exército terrorista, que mui recentemente a Casa Branca assevera não poder conter (afirmação que provoca uma hilariedade generalizada).
O que demonstra esta confrontação entre as carreiras políticas de Condolezza Rice e Hillary Clinton ?
Que apesar das diferenças apresentadas como ciclópicas pelos "mírdia" , a linha de diferenciação entre "os Elefantes e os Burros" é tão ténue que, a todo o momento, mudam de campo e se confundem.
Nos entretantos, a nível nacional, Sua Excelentíssima Excelência o Primeiro Absoluto nos Patamares do Estado Português , afivelando a sua máscara mais grave, toma posição disfarçadamente a favor da UBER, gigantesca rede transnacional do sector dos transportes, contra as redes nacionais de táxis, médias, pequenas e minúsculas, argumentando que a UBER é um desafio para a modernização do sector, que não podem ser erguidas barreiras à livre concorrência e ao empreendedorismo, insistindo que as posições dos táxis nacionais violam a lei e obstruem as forças policiais que a defendem. E, quando os táxis nacionais rumarem ao Palácio de Belém, decerto serão recebidos por um representante da Presidência da Republica. Ficou por explicitar qual a razão porque os representantes da UBER foram recebidos pelo próprio Presidente da República. Mas, serão mistérios aos quais apenas os Grandes Deste Mundo têm acesso, e têm compreensão para os abraçar...
Sua Excelência Excelentíssima o Primeiro Logo a Seguir na Escadaria do Poder, com a máscara habitual de uma tranquilidade oleosa e sorridente, garante que está tudo nos conformes, que nada ainda foi definido em definitivo sobre a sobre-taxa do IRS, que é tudo uma questão de "timing", que o mundo não acaba amanhã, que está contentinho com os minúsculos passos dados a favor da Arraia Miúda nas matérias da Saúde, da Educação e Escolaridade, das Reformas. Contentamento ministerial completamente ao arrepio do entendimento das Organizações Sindicais , que prometem continuar as suas lutas a favor dos trabalhadores portugueses reais. No quadro sindical, exceptua-se, claro está, essa "coisa" que dá pela sigla UGT , puxada pela trela do sr. Carlos Silva , grupelho divisionista, sempre pronto a lamber as mãos do Grande Patronato
Ambas as Excelentíssimas Excelências se regozijam com a presença de um português à frente da ONU. Em relação à eleição de António Guterres para a Presidência da ONU, apenas o Partido Comunista Português confronta prudentemente Guterres, não com o seu passado ( onde não existe lugar para a confiança ) , mas com as suas responsabilidades imediatas a nível mundial.
Ou seja, as forças políticas "do arco da governação" no rectângulo nacional (onde, claro está, não está incluído o PCP, por mais que se esforce o BE ) são um eco que replica, em fado menor, as grandes forças políticas da social-democracia estado-unidense - mais fascizante ou mais revisionista.
Amplexos, confiantes na luta de massas,
do Leopardo
Como se sabe a expressão "piscar o olho" foi cunhada na linguagem política por Carlos Carvalhas, então secretário-geral do PCP, e o camarada muito foi satirizado por ela pela social-democracia dos diversos matizes e pela direita pura e dura.
É, no mínimo, divertido que a expressão e a prática, sobretudo esta, sejam agora repescadas em crescendo nas Comemorações da Implantação da República Portuguesa.
O tom foi dado por Sua Excelência Excelentíssima, o Primeiro Absoluto nos patamares do Estado Português. Num discurso matinal, acolitado por duas centenas de pessoas, perorado nos Paços do Município em Lisboa, Sua Excelentíssima Excelência piscou seus olhos deliquescentes para o Centrão, a Direita, a Esquerda e, mesmo, o Passado.
Garantiu Sua Excelência Excelentíssima que o "conceito" e o "sentimento" de República estão profundamente enraízados no Povo Português, razões pelas quais os que são afectos à Causa Monárquica são acolhidos com tolerância e mesmo alguma simpatia pelos restantes cidadãos (eu diria que esta é uma elipse verbal suave para lhes dar duas palmadinhas amigáveis nas costas e os tratar como os tontos da Companhia).
Aliás, esta "delicada" simpatia presidencial pela Causa Monárquica despertou nos seus prosélitos um ardor submerso, pois têm aparecido no Facebook, a partir daí, uns escritos laudatórios a Dom Afonso Henriques (filho de um emigrante francês à cata de fortuna nas estranjas) e a sua mãe, Dona Tareija (espanhola do Norte, depois de viúva, amancebada com um galego), escritos certamente da autoria de vários pseudónimos de um mesmo "historiador" pouco preocupado com a realidade ida, todavia, preocupado com a sobrevivência da Causa Monárquica (dependurada num quinto andar escalavrado no Largo de Camões, em Lisboa). Aguardemos para verificar se o dislate atinge o ponto de tanger ditirambos a Dom Duarte Nuno, objecto de divertimento e pilhérias sem fim no Colégio Militar quando por lá gaguejou.
Acrescentou ainda Sua Excelência que os anelos da Arraia Miúda por salários e pensões de reforma mais entumescidos são perfeitamente compreensíveis, porém, têm que ser compatibilizados com o reequacionamento do Superior Orçamento do Estado - que pertence à ordem dos "factos" - e com o igualmente Superior compromisso do Estado Português na Aliança Militar de que faz parte, vulgo NATO, cuja qual é, como faz parte da sabedoria generalizada, um organismo pacífico, que uma vez por outra lá é obrigada a distribuir "uns safanões a tempo" (os deuses sabem como é pesado o fardo do homem branco para trazer o gentio à civilização "empreendedora"...).
Aqui, desculpem-me, mas tenho de pausar, pois é tamanha a omnisciência de Sua Excelência que me chegaram as lágrimas aos olhos. Já me imagino a pedir emprestado um super-jacto da Força Aérea ou um submarino da Marinha de Guerra (ainda que alemão, velho, só a navegar à superfície) - não esqueçam que são materiais da Rés-Pública, ou seja, da Coisa Pública - para ir passear até Caminha, vila minhota na foz do rio Minho, vila dos meus encantos. Com um bocadinho de sorte, ou de azar, consoante os ventos, posso até gozar da companhia de Sua Excelência, que rubicundas bochechas não lhe faltarão para oscular, ao som das trauteadas e coreografadas intervenções do Abrunhosa , que é mui amigoche do Excelentíssimo. Com ventos dominantes favoráveis, digam lá se este não é um sonho 28 estrelas...
Antes de falar Sua Excelência Excelentíssima, pronunciou-se o recente Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, cujo nome não retive devido à sua recente notabilidade. O cujo qual presidente, com nome em processo de sedimentação, ao som de fanfarras tonitruantes , assegurou que a "Geringonça"está para lavar e durar, apesar dos pauzinhos na engrenagem introduzidos pelos estropícios do costume - leia-se, PCP, CDU, ID, Verdes, CGTP-IN e Sindicatos afins - e que passos pequenos, é certo, mas seguros, se vão dando, direitos, não "a amanhãs que cantam", mas, direitos a um futuro mais justo e consensual.
Logo que a recente notabilidade findou sua falação, "os mírdia"esganaram-se a sugerir que aquele era decerto um discurso de primeiro-ministro e não, apenas, um discurso de um mero presidente de Câmara, embora a Câmara seja a de Lisboa, e Lisboa seja a capital do País.
É óbvio que este discurso "mírdial" é um epitáfio antecipado - e encomendado - ao nosso Primeiro Primeiro Logo A Seguir e uma via de despejo das suas actuais funções. Pelo que ficamos todos a conjecturar qual será o desenho completo das intenções e programas da Direita.
Óbvio igualmente, que a "Geringonça" , pese embora os seus "pára-arranca", alguns progressos arrecada para a vida da Arraia Miúda.
Sua Excelentíssima Excelência o Primeiro Absoluto nos patamares do Estado Português congratulou-se hoje com a vitória de António Guterres (também vulgarizado como Bochechas 2, versão suavizada) na sua eleição-cooptação para o cargo de director da ONU. Congratulou-se com uma eufrásia épica, luminosa: "está bem tudo o que acaba bem e ganham os melhores".
Não duvido da originalidade e do adequado da frase, mas, derivado do meu modesto QI - que de forma nenhuma aspira a equiparar-se ao de Sua Excelência - e da desconfiança característica dos Felídeos, não consigo entender em que é que a designação de um português para um alto cargo das mais altas Organizações do "Ocidente" benefícia o Povo Português e Portugal, dado que, até ao presente, mal estas notabilidades abandonam o solo nacional são acometidas de uma amnésia súbita, olvidam o solo natal, e nada na sua prática concreta traduz o amor pela Pátria e o seu Povo.
Contudo não devo deixar que esta edição do blogue finde no politikês. A sua dimensão explicitamente cultural vem da primeira edição. Também ontem e hoje, na RDP, Antena 1, ouvi uma dupla - uma voz masculina e uma voz feminina, cujos nomes ainda não
fixei (podem enviarmos porque eles merecem) a cantar muito bem. Que cantam eles? Na sua essência apenas um estribilho, que redunda em afirmar que vivemos sós, estamos sós e sós morremos. Terminam em dó menor de fado negro.
Ora, tendo eu apreciado as vozes que cantam, discordo profundamente do conteúdo da mensagem transmitida. E discordo a partir da minha militância política, da minha vivência da criatividade literária, da minha vivência afectiva. E porquê? Porque todas elas estão pranhas de outras vozes que não a minha, porque em todas elas ressoam outras vozes que constantemente me acompanham, com as quais discuto, argumento, converjo, divirjo. Sinto sempre relutância em apodar de meu os textos que vou parindo, pois todos eles ressoam de vozes que me assaltam de todos os lados.
E é também para os outros - os que conheço, os que ainda não conheço e os que nunca conhecerei - que escrevo. O socialismo, o comunismo - as suas variantes à viola e à guitarra, e os seus antípodas mail'os seus matizes - não se fecham na gaveta, enxameiam o que sentimos, o que pensamos, o que fazemos.
E, afirmo eu, também ocorre semelhante com a dupla que canta tão bem que, embora assevere o contrário, grava um CD, vai à Antena1 defendê-lo e aguardará que se venda, que seja ouvido muitas vezes, que se escrevam recensões favoráveis. Se fosse apenas uma questão de sobrevivência e de "money, money, money" poderiam arriscar menos, praticar um jogo mais caseiro, cantarolar uns romantismos róseos com um acorde por outro levemente ácido, mas camuflado.
Se os ditos cantores respingarem, ou algum do meus pacientes leitores, poderei desenvolver o tema das convergências entre a Filosofia e a Música, que, aliás, me foi suscitado por esta dupla tão bem cantante . Sempre as vozes dos Outros que ressoam nos meus interiores !...
Caros Amigos não consigo aqui enfiar as fotos que pretendia de Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, António Guterres, Cavaco Silva, dado que os stocks de imagens das personalidades referidas, as bloqueiam e o tornam na prática impossível para as minhas reduzidas competências de internauta.
Amplexos desconfiadamente confiantes do
Leopardo, confiante apenas na Luta Colectiva
Esta edição do blogue foi em parte desencadeada por um filme premiado no Festival de Cannes, "La pazza gioia" (que foi traduzido para português por "Loucamente" e que eu traduziria por "Alegrias Loucas"). É, de facto, um filme notável, de um realizador notável - Paolo Virzì - , o qual soma outros prémios importantes (Veneza, Cannes) em trabalhos anteriores. Virzì, responsável igualmente pelos temas musicais carismáticos entrelaçados na obra.
A película relata a história de duas loucas internadas num hospício. Uma delas (interpretada pela excelente actriz Valeria Bruni Tedeschi, que é também muito conhecida por ser irmã da consorte do presidente francês, Carla Bruni, a qual ocasionalmente canta e encanta) é uma histérica bipolar, megalómana compulsiva, habilíssima a manipular e roubar qualquer pessoa que lhe calhe pela frente. Divorciada de um rico advogado, - traste de alto coturno, de sexualidade transviada -, que continua a explorar financeiramente, ex-companheira de um presidiário em fuga, único homem que a dominou, a rouba, maltrata, lhe urina em cima.
A bipolar megalómana compulsiva encontra no hospício a sua cara metade: uma louca, com metade da sua idade, um aparelho ortopédico numa perna, tatuagens e piercings por tudo quanto é imaginável, que intentou suicidar-se com o filho de meses para que ele não lhe fosse retirado pela Assistência Social (superlativamente interpretada por Micaela Ramazzotti) , que é internada no hospício em regime prisional.
As duas mulheres intentam uma fuga do hospício numa fase de abrandamento do regime de clausura, abrandamento irresponsável, propiciado pelo director, que mantém um relacionamento afectivo em segredo com uma das psiquiatras que acompanha as doentes. As duas mulheres fogem do hospício nos mais variados meios de transporte que encontram ou de que se apropriam, normalmente pela inventiva da megalómana e os ataques de fúria da mãe suicida e infanticida.
Aqui acode-nos à memória cinéfala o magnífico "Thelma e Louise", igualmente duas mulheres numa fuga impossível ao seu passado, num carro - "Thunderbird" azul celeste -, fuga que terminará num voo fatal para o fundo do Grand Canyon.
A mãe suicida-infanticida é a demonstração de uma infância infeliz, de pais que nunca a assumiram e a abandonaram. A mãe, abandonou-a a ela e traiu o pai, saltitando de homem para homem, sempre na miragem de encontrar um velho rico que casasse com ela e lhe deixasse em testamento a fortuna. O pai, músico medíocre de jazz, em bares subalternos, abandonou igualmente a filha, que não era capaz de compatibilizar com a sua vida de músico itinerante, embora, roído de remorsos, a fosse auxiliando com algum dinheiro uma vez e outra. Pai ao qual a infeliz se sente em débito por o desconcentrar da sua vida de músico, que supõe brilhante, e pelos eventuais socorros monetários.
Em "La pazza gioia" estamos perante um tragédia tricotada com fios de um humor divertido e cruel que não poupa a sociedade metafórica escalpelizada. Uma espécie de Dostoievski "all'italiana", tricotado a sangue, que nos leva a compreender por dentro as razões de uma mãe suicida-infanticida.
O cinema italiano, após duas décadas de declínio, a partir sensivelmente dos finais do século XX, retoma as suas tradições ímpares de associar o neorealismo a um humor-sátira sem pausas, onde o estalo e o beijo, a lágrima e o riso se confundem.
Mas, o cinema italiano não detém o exclusivo de fundir as "alegrias loucas". A realidade política, social, ideológica portuguesa replica-a em acordes ibéricos.
António Costa adia para 2018 os aumentos salariais, em nome do bom senso e do equilíbrio orçamental. Sua Excelência Excelentíssima o Primeiro Absoluto nos patamares do Estado Português não ergue a voz, mesmo em surdina, para defender a Arraia Miúda, que jurou defender, embora já tenha espontapeado o direito a aumentos salariais e às Contratações Colectivas dos Educadores e demais trabalhadores da Área do Ensino.
A discussão em torno de 10% de aumento mensal nas pensões de reforma - que na maioria dos casos significa 10 euros mensais - faz-se num atoleiro de demagogias, trapaças, confusão. A voz séria de um economista, Eugénio Rosa, investigador militante no PCP, tem dificuldade em fazer-se ouvir, dado o escassíssimo tempo que lhe é concedido pelos "mírdia". Enquanto isso, sabemos que 10 euros é um valor que pode ser decisivo para um medicamento ser comprado, ou não, nas farmácias, por casais idosos com pensões baixas. Ou seja, 10 euros é a diferença entre a vida e uma morte adiada.
Também, enquanto isso, tomamos conhecimento que o ex-primeiro-ministro e ex-presidente da República, Escavaco Silva- o estadista mais anos à frente dos "negócios" do Estado Português - parece ter sonegado metade dos impostos que devia ao fisco.
Então, digam-me lá se ficamos ou não atrás do neorealismo italiano na arte de fundir a tragédia e a sátira??...
Amplexos confiantes na luta colectiva
do Leopardo
No dia "twenty nine" do corrente mês e ano, a Antena 1 da RDP, emprestou os micros, sempre obsequiosos para os meteoritos do BE, a Mariana Mortágua.
A entrevista era conduzida pelas mãos seguras de Inês Flor Pedroso, comentadeira de serviço para os casos maleitosos de "esquerdalhadas".
Convenhamos que a Mortágua não é responsável pelo apelido que herdou, pois "mortágua" recorda-me irremediavelmente - a mim, que sou velho - um defunto inspector da PIDE com
fama de ser dos mais brutais, mas Mariana Mortágua já é responsável pelos sistemáticos tiros nos pés que dá na imagem pública de Toda a Esquerda de cada vez que abre a boca ou assume posturas políticas. O País ainda não esqueceu aqueles espantásticos cartazes em cujos quais Joana Amaral Dias - outro meteorito do BE sedento de publicidades - surgia obviamente gravidíssima com um vulto masculino a cavalgar-lhe a retaguarda. Mortágua justificou que o que é natural é para se ver. E a Nação inteira ficou suspensa e ansiosa para se inteirar até onde ia a "naturalidade". Ficou-se por ali, que as carinhas larocas do BE apenas investem em atrevimentos virtuais e imagéticos, minguando bastante na coragem política de afrontar o Grande Capital.
Para onde disparou desta feita a Mortágua? De um atrevimento ímpar, de peito aberto às balas, de uma constância exemplar, Mortágua disparou para cima do PCP. A pretexto da taxa do IMI, que o meteorito faíscante do BE considera uma medida positiva neste momento para aliviar o peso dos impostos sobre a "classe média", MM acha que o PCP devia tê-la apoiado sem mais aquelas.
Entretanto, no que é público, a moldura do IMI já subiu para um milhão de euros e revela-se apertada para lá encaixar a "classe média".
Porque mais isto, porque mais aquilo, Mortágua desdobrou-se em conselhos imperiais ao PCP :
que o Partido devia sentar-se à mesa com os outros Partidos - deixou numa nebulosa se nesses Partidos incluía os de Direita, contudo pareceu-me que sim, dado que a MM abria os abraços num abraço universal - pois, alguma coisa sai sempre de positivo dessas debates "democráticos" nos mais diversos "fora", porque as questões económicas são "laterais" às ideológicas, excepto nuns casos em que deixam de o ser, embora não ficasse claro quais as excepções (o que, valha a verdade, também não interessa grandemente, pois se lhe forem pedidas explicações sobre este particular, Mortágua dirá que foi mal entendida, que realmente o que queria significar era outra coisa qualquer).
Obviamente, Mortágua não leu aquela parte (terá lido alguma parte?...) do "Capital" de Marx , na qual o autor afirma "ipsis verbis" que um sistema económico está sempre entrelaçado com uma estrutura social, política, ideológica, cultural e de domínio das forças armadas.
Enquanto Mariana Mortágua disparata como lhe dá na bolha, Sua Excelêcia Excelentíssima o
Primeiro Absoluto nos patamares do Estado Português, pretende amarrar os professores e demais pessoal no Ensino a um pacto de regime que os impeça de exigir aumentos nos minguados vencimentos durante um quinquénio. O que é um claríssimo pontapé nos direitos dos que trabalham na Educação, na Contratação Colectiva, nas Organizações Sindicais.
Igualmente neste entrementes, o País toma conhecimento, inquieto, que um tal Barrascoso, ex-ragueby-man, ex-maoísta linha dura, ex-presidente da Comissão Europeia, que de há uma década e meia só pousa em Portugal para mudar de avião, colaborou na candidatura de uma búlgara, fascista, Kristalina Georgieva a secretário-geral da ONU, enquanto ele próprio Barrascoso, presidente não-executivo (ou seja, empregado) do Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento do mundo, com sede na City Londrina (que não depende da legislação da Grã Bretanha) se guarda para futuros mais suculentos. No meio da alegria dos seus pares. E dos lamentos de Sua Excelência Excelentíssima o Primeiro Primeiro que expressou publicamente que seria uma mais-valia para Portugal se o candidato fosse António Guterres (não se percebe porquê, dado que todos os portugueses que têm atrepado a estes patamares de poder dá-lhes súbito uma amnésia que lhes varre a nacionalidade e os metamorfoseia em internacionais) .
Permito-me dar um conselho pessoal ao BE: mantenham a Mortágua nos cartazes, nos microfones, nas "pantalhas". Ela diverte-me, certas feitas provoca-me mesmo gargalhadas soltas. E, se me diverte a mim, divertirá igualmente entre 20 a 35 porcento dos Portugueses. Digamos que é uma tarefa nacional de que a incumbem...

Amplexos radiosos do
Leopardo