Reflexões do Leopardo

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sábado, 21 de abril de 2018

I Capuleti e I Montecchi

Confesso que estive divido para homenagear o dia Mundial do Teatro entre a Ópera magistral  " I Capuleti e I Montecchi"do siciliano Vincenzo Bellini , apresentada no Teatro Nacional de São Carlos, ao Chiado, e a peça "Morte de um caixeiro-viajante", encenada de forma magnífica por Carlos Pimenta e interpretada de forma excelente por um elenco de actores e actrizes a quem dou os parabéns de imediato.
Acabei por me decidir pela espantosa obra de Bellini por um conjunto de razões: a primeira, inteiramente subjectiva, porque coloco acima do meu bem amado Teatro "i drammi per musica", ou seja, a Ópera lírica, "séria" ou "buffa" tanto se me dá ; a segunda, porque Vincenzo Bellini foi um génio musical - que antecedeu em alguns anos outro génio musical, o irreverente Wolfgang Amadeus Mozart , aquele que dedicou bilhetinhos afectuosos às emissões sulfurosas nocturnas, vulgo peidinhos, da sua irmã Nannerl ( outra menina prodígio da música... ) - o qual, como Mozart, conheceu a glória muito jovem, e morreu aos 34 anos, também como Mozart, muito jovem e em circunstâncias rodeadas de mistério ( uma tentativa digna de retratar a sua vida e morte, seria um óptimo pretexto para uma nova Ópera... ), dando razão aos que sustentam que aqueles que os deuses amam chamam cedo para junto de si (decididamente não é o meu caso!...) ; "tercius" , porque todo o elenco do Teatro Nacional de São Carlos - cantoras/es solistas, o Coro e o seu maestro, o meu amigo Giovanni Andreoli , o maestro, a Orquestra, o desenho de luzes, a responsável pelos figurinos, a cenografia, os cenários, adereços e guarda-roupa, os figurantes - representaram de forma ímpar "il capolavoro" de Bellini ; "dopo" porque importa desfazer o equívoco que consiste em inspirar o "libreto" da Ópera  na famosíssima peça do mastodôntico Shakespeare , quando ela, na realidade, foi uma transformação da tragédia "Giulietta e Romeo" , de um tal Luigi Scevola (1818) - dos 834 versos do libreto original foram usados apenas 229 versos, aos quais se acrescentaram 350 novos versos, subtraídos personagens importantes tradicionais, etc, ... processos perfeitamente aceitáveis na época ... sem que se fosse acusado de plágio... ; ainda, porque, numa récita de 1835 ( faz quase 200 anos patrásmente ), o papel de Tebaldo foi interpretado no São Carlos de Lisboa por um tal Giovanni Storti que pode bem acontecer seja um antepassado da minha família ; "quartus" , porque a Ópera catapultou de imediato Bellini para o topo da fama, sendo as récitas interrompidas por inúmeras ovações e o compositor transportado até casa "ao som de música e à luz das tochas" ( mais um sinal de que os deuses ainda nem para mim se dignaram virar as vistas ... ) ; "quintus" , ( perdoar-me-ão, mas a linguagem profissional da tauromaquia possuí sobre mim um magnetismo ao qual não consigo resistir ... aqueles toques de clarim, para mim, são ordens ! ) porque Bellini introduzia tranquilamente ( com muitos sobressaltos na alma... ) na Ópera modificações substanciais quer quanto à substância da história representada, quer quanto à arte musical : os principais personagens da Ópera principiavam a deixar de ser reis e imperadores e tomavam o seu lugar os "camarieri", servos e servas que lhes limpavam os quartos, os leitos... , as sumptuosas roupas de sedas e brocados, assaz pesadas e sujas de... fluidos diversos ; e na matéria estrictamente musical, o primeiro lugar era ocupado pela palavra cantada que se sobrepunha à massa orquestral.

Bellini teve admiradores entusiasmados como Gabriele D'Annunzio, que via nele um Mestre, ou Stendhal, que o considerava "um dos tesouros imperecíveis da existência humana" , e detractores não menos famosos e notáveis como Richard Wagner - génio multifacetado da música, cuja visão dificilmente conseguia sair do círculo do seu híper-empolado ego - ou Hector Berlioz, que nunca entendeu que Bellini não se inspirava em Shakespeare, mas cuja descrição das aberturas orquestrais italianas é tão divertida, de rir às lágrimas, e provavelmente tão exacta, que não resisto a transcrevê-la : "Antes de subir o pano, a orquestra faz um certo barulho a que em Itália chamam de "Abertura"". Com efeito, no meio das conversas dos espectadores, a orquestra chegou ao fim coxeando, tanto do pé direito como do esquerdo. [...] Os mesmos italianos não conferem grande importância a esse certo barulho a que eles chamam de "Abertura". O público, afirmam eles, nunca a escutam. Por seu lado, os diletantes pretendem que não prestam qualquer atenção a essas "Aberturas" porque elas não o merecem." ( e não é que a récita a que assisti no São Carlos ao Chiado a Orquestra deu largas a esse "certo barulho" ... melhor nem de encomenda ! ).

É igualmente muito interessante saber que os papéis de Romeu e Julieta foram cantados/representados, na récita a que assisti, no São Carlos ao Chiado , por duas mulheres ( a mezzo-soprano italiana Alessandra Volpe e a soprano romeno Mihaela Marcu ; os outros cantores-actores façam o favor de comprar os mui económicos programas, pois não os devem perder ), sendo que o rabiosque da Alessandra/Romeu era de facto demasiado arredondado para um traseiro masculino e que a beleza da Mihaela/Julieta cumpria todos os requisitos sonhados pelos homens que nunca pensaram nem pensam fazer uma viagem até ao sexo oposto.

Interessante tomar conhecimento que  "divas" como Maria Malibran e outras optam por versões das suas árias que consideram mais confortáveis para a sua voz ( opções que, julgo, persistem na actualidade embora com menos frequência... ). Ou que o siciliano Bellini, de pele clara, olhos azuis, testa "nobre", alta, emoldurada por caracóis louros, tenha tido que avisar o impertinente tenor que o maçou até ao insulto (insatisfeito com as suas árias) que "as mãos que seu pai tinham ensinado a segurar uma batuta, tinham igualmente ensinado a segurar uma espada" .    


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E, hoje, fico-me por aqui. Na próxima crónica abordarei os praticó-concretos da actualidade.

A verdade destes tempos anunciados por Bellini e Mozart está a vir ao de cima, 

tempos nos quais os servos e as servas estão a fartar-se da sua tradicional servidão,

tempos que já deram origem às grandiosas Revoluções Francesa e Soviética.

Abraços confiantes do Leopardo Luso 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Juni Dahr

Tinha prometido dedicar uma das minhas reflexões à grande encenadora e actriz norueguesa Juni Dahr, directora do Visjoner Teater, que trouxe ao Festival de Almada - talvez o melhor festival de teatro da Península Ibérica - na Casa da Cerca, em 2016, a sua peça "Hedda Gabler", a partir do texto de Henrik Ibsen - autor carismático do repertório tradicional norueguês - com a qual tem corrido o planeta, e devo confessar que esta reflexão foi das mais difíceis de teclar que me couberam em sorte.
Não, claro está, pela enorme encenadora/actriz ter tido a gentileza  de me declarar um actor nato - após um "workshop" de 4 dias, 20 horas (que me soube a pouco...) - mas, porque é difícil condensar em poucas linhas a quantidade de orientações que nos transmitiu no praticó-concretamente sobre o teatro e o espectáculo.
Difícil explicar em paleio escrito escorreito em que consiste a sua concepção de "site specifc" ( em tradução literal lusa, talvez, "sítio específico" ) e que pretende indicar : descobrir o local exacto onde a verdade do encenador, dos actores/actrizes se encontra com o acolhimento sensível, intuitivo, do público. Para Juni , a verdade reside na representação das actrizes/actores, o que sustenta as suas afirmações "A verdade em palco é a verdade" ou "eles não falam sobre aquilo que dizem, falam de outra coisa. E é sobre isso que uma peça inteira é." ou "Não representem. Explorem." ou "Tentem virar o jogo. Sempre que pensam ter encontrado uma resposta, tentem colocar outra pergunta. Experimentem sempre o caminho alternativo." 
Concepção desastrosa em termos financeiros ( palavras da autora ! ) pois, implica pouco público, inúmeras récitas, para o escasso público de cada uma delas poder entrar no jogo : "No teatro dizemos : "Isto é real. Isto é a realidade para nós que aqui estamos. E, ao mesmo tempo, é mentira". Este é o ponto crítico do teatro. O público e os intérpretes fazem uma espécie de pacto. "As regras são estas. Agora podemos começar a jogar." 

Um pouco da biografia de Judi Dahr ajuda-nos a entender muito bem que ela não tenha sido outra coisa senão actriz de teatro ( o que ela tem dificuldade em admitir... ). "Eu costumava criar histórias, representar e inventar peças na minha imaginação, com as minhas irmãs, com o nosso cão, com amigos, durante toda a minha infância. Podia estar horas a fio profundamente concentrada [ ... ] A minha mãe era jornalista e levava-me muitas vezes para o emprego, e eu adorava quando o que ela tinha de fazer era escrever uma crítica de teatro. [ ... ] Na escola adorava representar e, no Secundário, escolhi como principal disciplina o Teatro. [ ... ] Os nossos professores eram alguns dos maiores encenadores e actores de teatro. Partilharam connosco as suas experiências, os seus sucessos, mas também as suas dificuldades. Sentíamo-nos parte da comunidade teatral." [ ... ] No Teatro Nacional de Bergen, também tive a oportunidade de trabalhar e de interpretar muitos dos grandes autores clássicos ( como Sófocles, Shakespeare, Tchecov, Dostoievski, Strindberg e Fosse ), assim como teatro moderno, vanguardista, musicais, comédias e peças infantis. Fiz de Cinderela mais de cem vezes.

Até aqui acompanho Juni, percebendo que uma Europa Unida nunca passou senão de uma balela e que na UE sempre existiram várias velocidades, vários ritmos. Porém, continuo a acompanhá-la quando expressa que queria "saber mais sobre as brilhantes representações dos filmes americanos. Queria saber mais sobre o "método" e sobre a "técnica Marlon Brando" ( que tinha pouco de "técnica" e, sim, de uma intuição inata para representar, segundo as próprias palavras de Marlon Brando, crítico implacável do Império Ianque ). Sim, tive aulas no Actors Studio e estive inscrita na Universidade de Nova Iorque em 1986-87."
[ ... ] " O Visjoner Teater foi fundado, na sequência da atribuição de uma bolsa Fullbright, para que eu pudesse ter a minha própria companhia e me pudesse candidatar a apoios. A bolsa Fullbright ( em tradução à letra, "Luz Total" ) permitiu-me ficar nos Estados Unidos e dar continuidade à minha investigação artística [ ... ].

Continuo a acompanhar Juni Dahr, todavia começam a acastelar-se nos meus neurónios desconfiados de Leopardo algumas questões cruciais : quem "quer" dentro do "querer" de Juni ? E como é que esse "querer" se entretece com a meta ideal de procurar "um ser humano livre" e como é que essa busca a conduz, em 1980, ao Solidarnosc e a Lech Valesa - agora totalmente "apagados"... - "que haveria de transformar por completo o sistema político na Polónia e, mais tarde, na Europa" e a introduz na União Soviética "a 18 de Agosto de 1991, despertando para uma nova situação política em Leninegrado/São Petersburgo depois do golpe contra Gorbachev ( sim, aquele senhor da manchinha na testa, que, hoje, não alcança mais de 1 %  na sua antiga pátria, e que tem rampa de lançamento na Itália, donde é disparado para conferências a 20 mil, 30 mil €uros a peça ... ).

A pergunta que, hodiernamente, coloco a Juni Dahr é onde iremos encontrá-la : na Síria, contra os Assad ? Na Coreia do Norte contra Kim Jong-Un ? Em Jerusalém, a favor do Estado Sionista de Israel ?
Talvez, a nossa artista, criativa, nos represente outras alternativas ? Qui ça ? Qui ça ? Hasta quando ...   


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Saudações confiantes e divertidas 

do Leopardo

terça-feira, 3 de abril de 2018

Ai-Ai, Lagarto, Lagarto, Lagarto !...

Esta crónica tinha 3 títulos à compita : aquele que a encabeça; Juni Daher, nome da encenadora e actriz norueguesa famosa em todo o mundo teatral, que reservei para a próxima crónica, ficando desde já assente que a notável Juni me considera um actor nato ao qual é apenas necessário transmitir mais uns ensinamentos, limar umas arestas ( frequentei um "workshop" de 4 dias em 2017, no qual me distingui, e manda a mais elementar modéstia que não o oculte !... ) ; e o de Dia Mundial do Teatro, o qual não me julguei suficientemente habilitado para o teclar .

Ah caros Amigos e Camaradas não se assarapantem com o facto de eu mero Leopardo dos antanhos abandonar toda e qualquer noção de pontuação preferia ter estado auto-exilado em Lanzarote como Saramago criador do "Memorial" e de personagens como a "Blimunda" vidente que previa o futuro antes de trincar um casqueiro ao pequeno-almoço ou em Jersey Guemsey Bruxelas como o mastodôntico Victor Hugôo autor dos "Miseráveis" ou da "Notre-Dame de Paris" criador de personagens como o "Gravoche" o "corcunda da Notre-Dame" cego de amores pela cigana "Esmeralda" ou "Jean Valjean" condenado às galés por ter roubado um pão ( personagem de força inaudita que sempre associei ao meu avô guarda-de-linha ferroviária e sapateiro para completar o salário e sustentar a família desde os 7 anos de idade )  personagens que uma volta entrados na nossa cachimónia não é mais possível desgravá-los de lá justificações sobram estou a usar processos interactivos de participação do leitor li recentemente faz sete anos atrás uma obra sobre a traição constante esmagamento genocídio das tribos "pele-vermelhas" pelos colonos brancos emigrados da Europa ou que dormi na própria tenda de Touro Sentado - Tatanka ( Bufalo ) Yotanka - a fumar o seu cachimbo da paz com um equivalente da "cannabis" por baixo do seu totem e encostado à sua "skuó" por deferência do grande chefe sioux pois o João Lagarto encantou-se por um escritor checo assim uma criatura ao jeito bloquista mistura de cambalhotas no colchão com alfinetadas quanto baste no assédio e pedofilia católica israelita e "tutti quanti" salpicada mesmo de umas trafulheiras económicas do Grande Capital e se não dou os parabéns ao Lagarto pelo texto travestido que me soa a capitalismo domesticado pela trela mui elástica dou-lhe os parabéns pela representação de uma hora e meia sozinho em cena a bebericar o que imagino uma tisana a imitar vagamente um "rosée" representação que nas minhas habilidades cénicas de aluno emérito de Juni Daher ( não esqueçam... ) só provocariam bocejos e saídas disfarçadas do querido público ora o Lagarto desfrutou de uns longuérrimos 10 minutos de palmas com a assistência entusiasmada de pé ( excepto eu que estava doente constipado... e grávido de inveja ) É OBRA !!!

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Se descobrirem o nome do escritor checo adoptado pelo Lagarto,

darei o Vosso nome a uma das minhas próximas crónicas,

"parole d'honneur" do

Leopardo 

quarta-feira, 28 de março de 2018

A Dialéctica na Vida e na Ficção - Acto II

Eu teclei na crónica anterior que não é fácil demarcar uma linha de fronteira entre a "realidade" e a "ficção" e continuo a sustentá-lo ( não estava sob o efeito da "cannabis", comprada nas farmácias, em comprimidos, ou cultivada em casa, em canteiros, apesar da intensa propaganda desenvolvida pelo BE ). Com efeito, demarcar esta fronteira entre a "realidade" - as coisas tal como elas são - independentemente da forma como o ser humano as interpreta - as "ficções" - tudo são ... concepções da inteligência humana, elaboradas pela ciência, pela filosofia, pela literatura, pelas artes plásticas, pelo trabalho e pela vida prática dos homens. 

Talvez um leão, um leopardo, um elefante quando atacam ou defendem, não se interroguem sobre o que é real e ficcional, talvez tudo se passe ao nível da sobrevivência pura e simples ( leiam o meu romance-narrativa sobre a guerra colonial em Moçambique , "A Guerra não foi no Cobué", onde "descrevo" uma situação equiparável ), porém não temos acesso directo ao que pensa um desses animais, ditos "irracionais", - se é que este "pensar" é semelhante ao pensar humano - , nós, seres humanos, é que elaboramos "representações"sobre o que, eventualmente, pode ocorrer dentro deles. 

O termo "Dialéctica" deriva do grego antigo ( sim, por que o grego actual, encantado pela frauta de Pã do Syriza, frauta que também encanta o BE , conduziu a Grécia a ser arrastada pela arreata do Grande Capital Europeu , nada resultando de bom para os cidadãos europeus comuns ) designando um método de diálogo cujo foco é a contraposição de ideias que levam a outras ideias. Em tradução literal, "Dialética" significa "o caminho entre as ideias".
Pouco a pouco, passou a significar a "arte", através do diálogo, de demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão ( "polemos", ou guerra, de onde deriva "polémica", "guerra verbal" ) , ou a arte da palavra.

Aristóteles considerava Zenão de Eleia, um sofista (490-430 a.C.) , o fundador da Dialéctica. Outros, nomeadamente Platão, consideraram Sócrates (469-399 a.C.) o seu fundador ( como se sabe e Vasco de Magalhães Vilhena exaustivamente demonstrou, dos grandes filósofos, Sócrates, considerado o maior e o mestre de todos os Sofistas, foi o único que nunca escreveu uma linha, talvez por causa da sua concepção de Filosofia: via de conhecimento e elevação moral da "alma", "anima", sopro vital ) . Se se vier a descobrir uma ou várias linhas redigidas pelo punho de Sócrates, pode acontecer que a Filosofia dê uma volta na tumba...

Segundo Platão, aristocrata, conservador, primeiro teorizador do poder político, a "Dialéctica" é sinónimo de Filosofia - que ele teria bebido de Sócrates - e seria a via que parte dos "phainómena", as coisas como aparecem aos sentidos, dados contraditórios que conteriam apenas parcelas do "Ser", para chegar ao mundo das Ideias, mundo do Ser, imutável, eterno, onde o Ser se manifesta em plenitude. 

Heráclito de Éfeso (colónia grega na Jónia, actual Turquia), viveu entre 535 a.C. e 475 a.C., apelidado de o "Obscuro", terá sido o pensador dialéctico mais radical da Grécia Antiga ( o qual se volta a reinterpretar actualmente ) , tendo defendido que os seres não possuem qualquer estabilidade, estão em movimento constante, modificando-se ( concepção que reaparece, por exemplo, no químico Lavoisier, no século XIX ). Ficaram famosos os fragmentos atribuídos a Heráclito de que "um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio porque nem o homem nem o rio serão os mesmos".

Heráclito contradizia o filósofo Parménides de Eleia - de famílias ricas, que terá vivido entre 501 a.C. e 470 a.C. - (outra colónia grega no litoral da Campânia, no sul da Itália, ao sul de Salerno) , o qual sustentava que a "essência" do Ser é imutável e as mudanças são ilusões dos sentidos .  Dos fragmentos do seu poema "Sobre a Natureza", em hexâmetros - forma poética influenciada por Homero - descreve duas visões da existência: "O Caminho da Verdade", da "alétheia", "o que é e não pode deixar de ser", "pensamento e ser são o mesmo" ; e o caminho da opinião, da "doxa", "o que não é e não pode ser".
Platão sempre escreveu sobre Parménides com grande admiração e dedicou-lhe o diálogo "Parménides". Não foi o único. O poeta francês Paul Valéry, no século XX, homenageou-o com os belíssimos versos : "Parmenides ma tu percée de cette fleche aillé, qui vole e qui ne vole pas" .

Neste Cosmos ( outra ideia a pedir explicitações, senão tornassem esta crónica excessivamente pesada de filosofemas, mas que podemos tomar pela "totalidade das existências possíveis" )  de palavras-ideias que remetem e dependem de uma rede palavras interrelacionadas. Uma rede de ideias humanas onde se tenta demarcar um caminho, interminável, entre o "real" e o "ficcionado".      


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Mas, não estive para aqui a recordar-Lhes as mutações que o conceito de Dialéctica foi adquirindo através dos séculos - creio que é despiciendo sublinhar o papel central da Dialéctica no pensamento marxista-leninista, o qual revolucionou todo o final do século XIX, o século XX, o século actual e, decerto, os vindouros - para Lhes falar da Ópera "Idomeneo, re di Creta", do genial Wolfgang Amadeus Mozart, sem dúvida amado pelos deuses (que tão cedo o chamaram para junto de si... aos 35 anos). Não viram ? Vissem ! Um público tão culto !!... Aposto que não têm falhado as futeboladas que os "mírdias" , todos os dias, a todas as horas, nos despejam nos neurónios...
É verdade que o Mozart, com o seu "Idomeneo", inventou uma série de novidades a nível instrumental e estilístico - inspirado em Metastasio, o libretista mais famoso do século XVIII - e com esta obra - na qual, por exemplo, levava em consideração cuidadosamente as particularidades da voz de cada um dos seus cantores/as, que conhecia pessoalmente ( não compunha para a voz de um cantor ideal, abstracto ) - começou a libertar-se de Salzburgo, sua cidade natal ( onde nunca mais voltou ... ), e do seu pai, Leopold Mozart, personalidade tutelar, que cedo percebeu que lhe cabia gerir e aproveitar-se - em salários, moedas sonantes, jóias, prendas diversas - do génio que a fortuna lhe depositara nas mãos. Leopold , para além de entender rapidamente o génio do filho e da filha, Maria Anna, a famosa Nannerl - à qual Amadeus escrevia bilhetinhos íntimos a dizer que adorava os peidinhos que a mana soltava durante a noite - , o pai Leopold teve ainda o mérito de habituar os filhos a uma disciplina de trabalho árdua, que terá uma parte de responsabilidade nas mais de 600 obras compostas por Mozart na sua breve vida ( começa a compor aos 5 anos ) e na sua actividade incessante a percorrer a Europa Central em digressões em busca de mecenas e financiamentos como instrumentista - cravo, piano forte, viola, violino - , como maestro e como professor de alunos famosos - entre eles, talvez, de Beethoven - e que lhe proporcionou contactos com personalidades marcantes da época como o "castrato" Farinelli, célebre pela sua voz e pelas peripécias sexuais em que se terá envolvido.

Wolfgang Amadeus Mozart, casou com Constanze (antes "namorara" com a irmã dela Aloysia...) com a qual teve 2 filhos, que faleceram muito cedo ( discute-se agora bastante se as vacinas contra o sarampo, a papeira, a varíola devem ou não ser de tomada obrigatória; o caso da família Mozart é ilustrativo: dos 7 filhos de Leopold Mozart, apenas Amadeus e Nannerl ultrapassaram a infância e Amadeus com a face toda marcada pelas pústulas deixadas pela varíola, marcas que tentava disfarçar com cremes variados ).
Nas crónicas da época existe um rasto de que Constanze não terá sido um modelo de fidelidade a Amadeus Mozart, mas sobre este existe a certeza de que teve inúmeras amantes entre as cantoras e as camareiras com quem trabalhou. Ao certo, sabe-se que Constanze geriu com sensatez os ganhos elevados do marido, que ele, porém, sempre desperdiçava desordenadamente em projectos, festas, amantes, alojamentos, carruagens, vestuário que ultrapassavam o que auferia. 
Como compositor Amadeus Mozart liquidou a barreira entre Ópera 'séria' ( da tradição francesa e inglesa - terá conhecido e sido amigo de Händel, já depois do "divino" se ter naturalizado britânico) e Ópera "buffa" e introduziu a língua e a mitologia alemãs definitivamente na Ópera ( coisas que eu, pessoalmente, jamais lhe perdoarei !... ). 
Mas, eu estive aqui com este parlapié todo não para lhes contar que o "Don Giovanni" (1787) talvez signifique o acerte de contas com o pai Leopold, representado na Ópera no Comendador, que pretende destruir física e moralmente o libertino Don Juan ( Sigmund Freud terá decerto ficado surpreendido ao compreender que alguém, antes dele, terá intuído "o complexo de Édipo" e a necessidade dos filhos "liquidarem" metaforicamente os pais para os superarem ), atirando-o para o Inferno ( há quem interprete esta Ópera como um sinal de ateísmo ou de panteísmo, um deus-matemático/geómetra, até porque Mozart foi assumidamente"rosa-cruz" no final da sua breve vida ), nem para lhes relatar que as suas "Bodas de Fígaro" elevam a Ópera "Buffa" e os personagens da plebe - os criados e as criadas - ao nível dos personagens da nobreza.

Nã senhora, isto tudo foi paleio introdutório para argumentar com Luís Miguel Cintra e com João Mota, maestros, encenadores e actores, líderes indiscutíveis, respectivamente, dos Teatros da Cornucópia e da Comuna.

Ao Cintra reitero que a História do Teatro Português nos séculos XX e XXI não seria a mesma sem ele e a Cornucópia. Assino de cruz debaixo das suas afirmações de que também para mim, quanto mais experiência acumulo e reformulo, maiores são as minhas dúvidas - exceptuando nós essenciais quanto à natureza Socialista-Comunista do Futuro - , nada se me apresenta tudo branco ou tudo negro, tudo me aparece em gradações de cinzentos, e julgo mais importante reflectir sobre as minhas fraquezas.
Assino ainda mais de cruz quando afirma categórico que hodiernamente se pretende liquidar ( eu diria assassinar ) com a "excepção" na realização de um espectáculo ( e eu estenderia a afirmação a toda a Cultura e não apenas às obras teatrais ). O Grande Capital, que se rege pelo princípio absoluto dos maiores lucros, fabrica um fato modelo para que lá se encaixem os criadores existentes, destruindo-os, é evidente, justamente como criadores. 
Igualmente não sinto nenhum conflito geracional. Não é raro entender-me melhor com pessoas da idade dos meus netos do que com tipos da minha idade, que se me prantam defronte como cristalizados no tempo.

Ao Cintra contra-argumento-lhe, porém, que não lhe é possível enterrar a Cornucópia ( nem mesmo ele !... ) para a fazer renascer, no dia seguinte, como uma Fénix. A "nova" Cornucópia manter-se-á para sempre ligada à "antiga" por um cordão umbilical impossível de lhe enfiar o bisturi.

Ao Mota digo-lhe igualmente que a História do Teatro Português dos séculos XX e XXI não é compreensível sem o seu trabalho criativo nem a sua direcção da Comuna.
Compreendo perfeitamente que só aborde uma nova peça quando esta o toca por dentro, quando lhe palpita "a alma".
Percebo que seja contra a classificação dos espectáculos por idades, que considera uma tolice, pois os jovens podem ver tudo o que os atrair nas "pantalhas" das televisões paternas ou, pior, nas "pantalhas" dos híper-ipod's dos quais vivem dependurados.

Todavia, discordo vivamente quando recusa o diálogo com qualquer Partido - mesmo com aquele que tem provas dadas de anos e anos preso e assassinado em todas as masmorras do fascismo salazarento - simulando resolver o problema da Liberdade, afirmando-se a favor de todas as Liberdades, contra toda a opressão, usando a bela fórmula de Fernando Pessoa : "temos saudades é do futuro".
Preconceitos amigo Mota ! Sobretudo, depois de ter confessado que é um ditador para os seus "colaboradores": quem não está de acordo consigo, quem não executa o que lhe manda, Rua !!
Preconceitos amigo Mota ! Quem não dialoga com outros Partidos e pessoas - e, insisto, existem alguns e algumas com demonstrações práticas abonatórias a seu favor - limita a amplitude da sua visão, aceite ou não, as experiências alheias. 


  
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E fico-me por aqui. Esta dialéctica está-me a exigir mais actos ou mais cenas.

Portantos, despeço-me com uma imensa alegria, até ao meu regresso em breve.

O Leopardo