Como ia teclando na reflexão anterior, os tambores iam ressoando na selva mediática. Rataplan-Ratlapan-Rataplan...plan...plan... Estão a senti-los?
Uma das primeiras criaturas a dar por eles foi Catrina Furtado (não me enganei nada no nome, a fulana já anda nos canais 1 da TV, ora pública ora balsemónica, desde a Nau Catrineta; e fez-lhe bem porque como só tinham sola para manjar não há meio de engordar).
Catrina que se notabilizou por noivar com Portugal em peso e por uma esfuziante "trouvaille", "P'ró Paaalco!", mal sentiu os tambores da aldeia mediática, postou-se defronte do espelho mágico e proferiu as waltdisneyanas palavras : "Diz-me espelho mágico se em Portugal, existe uma mulheraça mais lindaça do ca eu !" . O espelho mágico entupiu, ou seja, em lugar da chuva de estrelas doiradas habitual, acompanhadas do urlo tirolês "CATARÍÍÍNAAaaa" a estilhaçar-se nas quebradas das montanhas nevadas, o espelho mágico ficou com a superfície polvilhada de chuva como os écrans televisivos, interrompendo um minuto depois para colocar uma imagem fixa onde se podia ler "o programa segue dentro de momentos; ausência momentânea de rede".
Catrina, denunciando a fantástica capacidade de decisão dos seres destinados ao sucesso, expediu imediatamente uma tropa de espiões assassinos a cavalo, armados com espadas, lanças, adagas, flechas envenenadas, espingardas-metralhadores munidas de mini-mísseis nucleares, com ordens de dizimar quaisquer criaturas dos meios mediáticos que denotassem indícios, mesmo leves, de simpatia por Manela Moura Guedes - com tantas "plásticas" que já ninguém sabe dizer que espécie de ser animal é aquele, mas que consegue ser objecto de atracção por isso mesmo - , Barbra Guimarães - que consegue ter uns air-bags dianteiros maiores que os dela e tem sempre um olho negro, último "mimo" do ex-marido, distinto intelectual e ex-ministro Manuel Maria Carrilho; considerando a Furtado que os air-bags e o olho negro é uma excelente publicidade -, Fátima Lopes - com olhos de carneiro mal morto e fingindo estar concentrada nas misérias pessoais domésticas das suas encanecidas plateias enquanto calcula em que off-shores deve colocar os seus prenhes proventos -, a Alexandra Lencastre - ainda ontem em vaga baixa, pedinchando financiamento aos seus fãs, hoje em maré alta de folhetins e filmes a estrear, acrescentando uma beleza onde mal se discernem as plásticas - as mais directas concorrentes. Mais acrescentou a Furtado aos seus sicários, que, em caso de dúvida, exterminassem. O zelo excessivo nunca causou mal a ninguém!
Evidentissimamente que as concorrentes tinham tomado medidas semelhantes e expedido os seus sicários com ordens equivalentes.
A Lopes reforçara a coisa com um telefonema secretíssimo, em linha altamente reservosa, e explanara preocupações a Sua Excelência Excelentíssima o Senhor Cardeal Patriarca, cujo qual a sossegara asseverando-lhe que o caso estava sob controle, existindo até o acompanhamento de Sua Iminência no Vaticano. Lopes, consciente de que o seguro morreu de velho, resolveu pagar um re-seguro à cartomante em voga e uma mesa de contacto com o Além mediunamisada pela Alexandra Solnado ( que o pai , actor maior, esteja em descanso, pois não merecia uma filha adoidada ).
A Barbra ajeitou com o ex um segundo olho negro.
A Lencastre não fez "niente specile". Confiou na beleza, na onda alta.
A Moura Guedes não se recorda do que fez, pois anda a tomar uns analgésicos para atenuar as dores das "plásticas" e não se lembra do que acaba de fazer, quanto mais do que fez ontem.
O resultado foi que os sicários assassinos se foram trucidando onde se encontravam e as ambulâncias do INEM, dos Bombeiros, da Polícia, já não tinham viaturas, pessoal ou tempo para recolher os mortos, os semi-mortos e enterrá-los. As donas dos sicários-assassínios, de uma forma geral, estão satisfeitas, pois estes defuntamentos constituem uma oportunidade para renovar a tropa de assassinos com novos estagiários por um terço do salário ou até com salário zero, dado que estão a estagiar.
Mas, a Vida não pára, Lisboa é uma cidade em movimento, atuchadinha de alegrias, sempre a rir, e os "mírdia" iam noticiando que uma criança, que caíra no fosso dos gorilas, matara um gorila bondoso, que queria proteger a criança, com um golpe daquela evolução fantástica do jiujtse, criada pelas forças especiais israelitas-sionistas, que fulmina só com o olhar. Se não foi assim foi parecido, quem acabou morto, morto, de morte matada foi o gorila e os tratadores dele estão inconsoláveis, pois gostavam daquele símio melhor que humano, e tiveram que lhes tirar a criança das mãos senão tomariam a justiça a seu cargo. Os partidos políticos PAN e BE desataram aos pulos publicitários protestando uso excessivo de violência contra animais encarcerados.
Mais noticiaram os "mírdia" que uma empresa privada ensaca umas chorudas massarocas numa variante, digamos, de "bowling" onde "desportistas" arremessam, em vez de bolas, anões.
Tudo estaria certo, segundo os "mírdia", se a empresa reforçasse os anões com capacetes, joelheiras, cotoveleiras, luvas confiáveis. A empresa garantiu que vai investigar e se verificar que existe o mais pequeno aligeiramento nas medidas de protecção, as reforçarão. E que, de resto, aquela é uma profissão livre, que os anões podem abandonar sempre que queiram. As compensações a haver pelas rescisões serão analisadas pelos advogados das partes, sendo tratadas de acordo com a legislação inerente, sabendo-se que rescisões sem justa causa não abrem a porta compensações da empresa para os anões, mas a ressarcimentos destes à empresa por quebra de contrato indevida.
O PAN não tomou posição nenhuma, e o BE vai avaliando até onde pode levantar o escarcéu, até para encobrir o apoio que tem dado à presença da actual Turquia na NATO, à participação das Forças Armadas Portuguesas na política de ingerência armada violenta da NATO/Pentágono/CIA em todas as regiões do planeta, substituindo-se totalitariamente à ONU.
O canta-autor José Cid, desagrado por uma recepção pobre em Vila Real, entendeu por bem insultar todos os transmontanos, que, delicadamente, não-lhe retorquiram por que não canta melhor ou qual a razão pela qual não compra um implante capilar que não sugira o tecto de uma cabana de colmo.
Os "mírdia", sempre em compita com os correios.da.manhã deste País, estamparam nas vitrines noticiosas que um cabrão qualquer - mais uma vez recordo que os sonhos não respeitam peias - violou uma mulher e o seu advogado, ainda mais cabrão que o violador, recorreu da sentença "por a achar pesada para 20 minutos de acção". Este que estas escrevinha espera sinceramente que as penas para o violador sejam reforçadas, incluam chicotadas, e que sejam atribuídas igualmente ao advogado, que devia ser impedido de exercer advocacia durante uns anos, em observação.
O "Orelhas", desesperado porque não inventa nada mais reaccionário do que aquilo que já inventou, debitou umas patetices de acrescento, das quais ninguém é capaz de lembrar exactamente o que disse, e ameaça "escrever" um novo livro ( o que não significa "escrever" um livro novo; talvez encomende que lhe escrevam um dos antigos, agora do fim para o início ). Também consta que anda a pensar em aumentar os pavilhões auriculares, através de uma "plástica" - o que o obrigará a andar com umas campânulas de plástico como as dos cães. Considera agora que "os orelhões" lhe davam uma certa ficha...

Desculpem, ainda estou meio estremunhado
não sei se dos sonhos ou pesadelos
amplexos oníricos do
Leopardo
Quando comecei a teclar "isto" hesitei entre colocar a afirmação antes - "eu tive um sonho" - e a pergunta depois ou vice-versa. Ou seja, hesitei entre pôr-me na esteira de Martin Luther King ou instalar uma perplexidade a partir dele. Porém, dada a maluqueira que se vai seguir, julgo que tanto dá. É que deixei-me arrastar pelas imagens que me desataram a saltar em borbotões dos neurónios e é tudo sem tom nem som, nunca bate a bota com a perdigota. Um pandemónio.
Creio que tudo começou mais ou menos assim (já não estou certo de nada): saltou-me na "pantalha" da televisão ou do computador (não importa porque a fonte donde jorram é sempre a central de desinformação dos "mírdia") a imagem do pequeno Portas. Que o piqueno tem negócios com a Mota-Engil, que os negócios não são ilegais, mas são imorais (a legalidade é uma matéria fácil de manipular: basta colocar os crimes mais atrozes dentro da lei e eles passam a ser legais), que os negócios já acontecem desde 2013 e, então, a coisa terá sido ilegal entre 2013 e 2016, pois o piqueno nesse período exercia funções de deputado na AR e assim podia-se mais que supor que havia prosmicuidade obscena entre o público e o privado.
Que o nanico andava de mota, de mercedes de vidros fumados, de avião ou de submarino, com tanto que não seja o rapazola a pagar o fuel, a malta já sabia.
E o nanico, rápido, trocou os bonés por um capacete de plástico amarelo, botou umas "geans" azuis, arregaçou as mangas da camisa branca de bela popeline inglesa, microfonou que "vai fazer sete coisas ao mesmo tempo" (o que mete medo a qualquer pessoa porque é tudo merda - desculpem o vernáculo, porém nos sonhos a língua fica sem peias) e pôs-se a passear no meio de estaleiros... E não é que parecia quase um home?... Pr'áí um filho de um pato-bravo armado em capataz finaço a vistoriar as obras. Ganda malandro!
Ora logo os tambores começaram os seus retans-tans-tans na selva. Faz parte das práticas das aldeolas selváticas retransmitirem as coscuvilhices locais como se de fenómenos universais se tratassem. O Santana dormia. Acordou estremunhado, mal disposto - não era caso para menos, ser acordado ao meio-dia por uma pequenez daquelas - e deu ordem às satanetes para averiguarem. As satanetes puseram-se em campo, todas de t-shirt amarela, pois na véspera tinham estado numa Manif., a exigir liberdade e carcanhois públicos para o ensino privado confessional, uma coisa chique, com umas faixas e umas pankartes que tinham encomendado, devidamente ladeadas por uns guarda-costas tipo blocos de cimento, Manif. abençoada pelo Senhor Arcebispo, acompanhadas pelo Santana que até tinha partido uma unha. As satanetes estavam cansadas, uma delas ainda tinha um olho negro, pois o esposo arriara-lhe em casa, não perceberam nada, mas, pelo sim pelo sim, sugeriram uma série de coisas sórdidas e obscenas a assacar pr'ós lombos do Portas.
O Santana rejeitou as propostas todas, não por serem sórdidas, mas porque teve medo que o resultado fosse o inverso do pretendido. A maralha tende a apiedar-se de quem parece na mó de baixo, identifica-se com os perdedores. Vá-se lá entender a ralé! Porém, pelo sim pelo sim, resolveu exigir mais tempo de antena nas TV's, nas Rádios, nos Jornais. Que estava a sentir-se oprimido, amordaçado, seguramente há um dia e meio que não aparecia nos écrans. Que tinha duas ou três ideias geniais que o Dever lhe impunha partilhar com o País.
Irritado, com as unhas a serem polidas e envernizadas por uma satanete mais habilitada, Santana revolvia o toutiço para desencortiçar as tais ideias geniais. Pôr uma bandeira nacional maior no alto do Parque Eduardo VII? Pôr outra bandeira ainda maior na Cidade Invicta e em Guimarães? Fazer mais um túnel em Lisboa, na zona do Saldanha, para desengarrafar o trânsito naquela zona e o engarrafar nas saídas da capital (esta pareceu-lhe boa, pois poderia dar a ideia de Lisboa-capital-monumental, uma Paris do Sul, mediterrânica, digamos)? Constituir um "Governo Sombra", atuchadinha de ministros-sombra, para ensinar diariamente aos que assentam os rabos nos cadeirais do Poder como deveriam ter feito?
Esta última ideia estava a deslumbrá-lo, a desenhar-lhe mesmo uma auréola a néon sobre os cabelos grisalhos, untados com gel por outra satanete, quando lhe surdiu debaixo da cadeira o Marques Mendes, em presença virtual e halográfica. Santana teve dificuldade em reconhecê-lo dado o tamanho do personagem, ainda que halográfico, todavia a estridência da voz identificou o MM: "Quem julgava ele, Santana, que era? O PSD não estava em coma. Existia uma hierarquia , uma linha de avançados, capitaneada por ele próprio M ao quadrado, com avançados da categoria da Manuela Azeda o Leite, do Barrascoso... Ele, Santana, quando muito um ala para substituições de emergência. Que pensasse nas dívidas que deixara na Figueira da Foz, no Sporting, na Câmara de Lisboa. A gentalha, que tudo pagava, podia olvidar, porém, ele, M ao quadrado, jamais lho perdoaria !!! Deles dois, o único que podia constituir Um Governo Sombra, era Ele Próprio, M.M, e já o tinha pronto."
Santana estava siderado. Ignorava que o MM lhe enchera as diversas mansões de câmeras de vigilância, de aparelhos de escuta. Atropelavam-se-lhe nos neurónios esboços de vinganças, sanguinulentas, com cafés envenenados, punhaladas desferidas por sicários a soldo que morriam seguidamente em condições estranhas, atropelamentos brutais por carros não identificados, desaparecidos, cadáveres amortalhados em esquifes de cimento, atirados ao Tejo. Nos entretantos, sem resposta à altura, sorria, alisava os cabelos em cima da gola da camisa, simulava subserviência em relação... à imagem virtual. Tinha-se até levantado da cadeira e curvado a espinha.
Amigos, hoje fico-me por aqui,
sinto-me enojado de escrever sobre esta choldra
amplexos confiantes do
Leopardo
Na passada sexta-feira, no meio de um caótico fim de tarde lisboeta, quando me dirigia para o TMJB, parei num modesto snack-bar - um balcão, 6 bancos de balcão, duas mesas, refeições ligeiras a 5 euros, imperiais e vinho à pressão, coca-colas, gasosas, enfim, o trivial - , encomendei um café e um rissol. Enquanto engulia o apressado lanche, a televisão mostrava umas imagens do Ricardo Salgado, patrão do BES "velho", que deu com os burros na água com uma dívida gordíssima, ainda por pagar, de 22 milhões de euros. O pivôt da TV dizia qualquer coisa sobre o litígio em tribunal entre o batalhão de advogados do super-financeiro tecnicamente falido e o Estado português.
Terei alinhavado um comentário de circunstância dirigido ao proprietário do snack - única pessoa na loja, para além de um "homeless" barbudo, bêbado e da esposa do proprietário, na cozinha, em redor de panelas. Comentário lijeiro: "Vai ver que a este não lhe acontece nada. O processo jurídico vai arrastar-se, as provas mostrar-se-ão confusas, inconclusivas, beneficiará de uns perdões fiscais, umas amnistias, voltará para os palacetes e os "offshores"".
O que fui dizer... Desencadeei uma defesa acérrima do multimilionário, tecnicamente falido por uma "contabilidade inteligente", da parte do dono da lojeca de "comes e bebes".
O "argumentário" era sensivelmente assim : " É perfeitamente justo que os multimilionários sejam absolvidos, taxados por impostos mais baixos, condecorados mesmo, pois eles representam pr'áí 1% da população do planeta, logo consomem menos água, oxigénio, ozono, electricidade, gaz , petróleo, minérios, recursos e reservas do planeta Terra, assim devem ser os 99% restantes da população mundial que devem arcar com o grosso dos impostos, pois são eles quem mais consome."
E ajuntava triunfante, rematando para golo: "Além disso, além disso, sem bancos desaparece o comércio mundial. É lá que está o dinheiro, o "arame" é deles, e sem "pilim" não há negócios."
A minha alma ("alma" do grego "anima", sopro vital, respiração; nada de confusões com uma substância imaterial, princípio religioso de ligação com deus ou deuses) estava estupefacta. Eu estava a observar ao vivo, "in loco", uma criatura da espécie humana que reunia em si um concentrado quimicamente puro da estupidez. Nem de encomenda se conseguia tão perfeito. A criatura defendia o Grande Capital com uma contrafacção superficial, mas ardilosa, da ecologia e polvilhava-a com uns rudimentos financeiros que teriam feito as delícias dos banqueiros venezianos do século XIII.
Porventura sentir-se-à psicologicamente do mesmo lado da barricada social e ideológica dos banqueiros por se ter incluído na categoria dos "patrões". Como se ele, emigrado do concelho de Tomar faz meio século, patrão de um exíguo estabelecimento (decerto arrendado), onde consome umas 16 horas do seu dia a encomendar géneros alimentícios, bebidas, verificar qualidades, discutir preços, servir ao balcão, varrer e lavar o chão, mesas, cadeiras, espelhos, casas-de-banho, e consome mais 3 horas no seu transporte diário, para ele e para a "patroa" (pode ser que também para uma serviçal negra, sobra das antigas colónias) para o lar nos subúrbios da capital, estivesse no mesmo patamar social e de riqueza dos Grandes do mundo actual, com os seus vários palacetes no centro de hectares e hectares de terreno, os seus serviços de contencioso, os seus serviçais (dos motoristas às criadas de quarto, aos/às massagistas, aos "personal-training", aos dietistas, aos contabilistas, aos médicos particulares, às amantes), as suas "limusines", os seus "offshores" secretos.
A minha estupefacção era tanta - ao vivo, "in loco", nunca tinha assistido a uma estupidez tão corajosa, tão inconsciente, tão manipulada, ou tudo junto num cocktail indiscernível - que disparei dois, três contra-argumentos débeis, só por desobriga, só para sair de honra mais ou menos lavada ( "que o dinheiro não era dos banqueiros, era nosso; já nem correspondia a lingotes de oiro, era todo dinheiro virtual, todo cuspido de fotocopiadoras").
Eu tinha acabado de assistir à base de apoio popular da Grande Finança Actual . Que os deuses do Olimpo de Camões nos protejam! E grandes doses de LUTAS DA POPULAÇÃO, organizadas pelos Partidos, Coligações, Sindicatos, Organizações Sindicais, sérias, consistentes, com provas históricas dadas, TAMBÉM !!!
Do Leopardo,
confiante como sempre,
mas bastante zangado.
Hesitei entre se devia dar o título a este blogue de "A partitura da Merda" ou "A partitura de Merda". É óbvio que se emprego o "da" , estou a querer significar que vou partiturar sobre "a merda". Se uso o "de", estou a qualificar a partitura. A língua portuguesa é muito traiçoeira e a merda também. Ele há merda e merda (como os Bancos, "for instance")...
Optei pelo título do frontispício, pois se trata de confrontar litigiosamente a peça há 4 anos em cartaz, a correr mundo, a acumular prémios, denominada "La Merda" com a peça "La barque le Soir" , encenada pelo prestigiado encenador francês Claude Régy , a partir do influente escritor norueguês Tarjei Vesaas.
Sobre "La Merda" já teclei. Uma actriz italiana de excepção, Silvia Gallerano , nua em palco, figurando-se menos bela do que é naturalmente, sentada numa cadeira alta de desenhador, com rodinhas, a fazer desfilar perante os nossos olhos, durante uma hora e 40 minutos, - através de entoações diversas, de travagens e acelerações bruscas da voz, de sussurros, de "coquetteries", de urlos selvagens - os diferentes personagens nossos contemporâneos que cometem o crime de lesa-cultura de travestirem a arte cénica em espectáculos acéfalos de "enterteiner's ". A peça é de um escritor e encenador italiano, Cristian Ceresoli , 41anos, de uma sinceridade desarmante e contraditória, que, curiosamente se expressa menos bem oralmente que a actriz que o interpreta. A peça deixa o público arrasado pela magnificência da interpretação (não vi mais de uma dúzia de actores daquele nível na minha convivência de mais de 4 décadas com a escola-teatro de Joaquim Benite) e pela verdade substantiva do que representa.
"La Barque Le Soir" pode ser sintesidado na seguinte fórmula: um maximalismo de virtuosidade profissional apresenta um minimalismo de substância pensável.
Um actor, Yann Boudaud , num exercício de virtuosismo doloroso, contorce-se à boca de cena, quase às escuras, a uma velocidade lenta lenta, a um cagésimo de imóvel, para nos simular as intermitências da... catalépsia.
Como é sabido, a catalépsia é um estado de vida a roçar o limiar da morte, no qual a consciência desce aos patamares do subsolo. Depois de Saramago ter inventado uma suposta viagem ao Além da Vida, numerosos autores têm intentado variações sobre o tema. A verdade, porém, é que todos falam da margem da Vida. Até hoje ainda ninguém seduziu o lendário cão Cérbero.
O generoso público do TMJB não conseguiu disfarçar a ausência de entusiasmo que as intermitências da catalépsia e o minimalismo do pensável lhe suscitou.
Após ter proposto esta confrontação litigiosa, parafrasiarei o surpreendente Mário de Carvalho e afirmarei que "quem disser o contrário... é porque tem razão". Vamos, pois, à liça, que não sou um leopardo de bonanças.
Notas finais, dado que se trata de uma despedida. Um camarada, excelente militante de tertúlias poemáticas, meu admirador talvez excessivo, asseverou-me que tenho tanto de escritor superlativo como de vaidoso.
Olha que não, olha que não Diogo. É claro que tenho os meus momentos de vaidade, senão nem saberia do que se trata quando se fala da matéria. Aliás, é um dos sete pecados mortais (a soberba), todavia não me julgo instalado neste pecado capital. Até porque ele significa o reumatismo e o alzheimer artístico. Quem pensa que atingiu o topo, não se esforça por subir mais (Hegel e Wagner avaliaram-se assim). Quando simulei vaidade estava apenas a tentar passar à prática artifícios de provocação do leitor que andara a estudar em Dario Fo e Franca Rame .
Até porque é para mim evidente que este blogue é um fracasso: não consigo mais do que cinco "vizualizações" (o que não implica necessariamente leituras) por dia. A impotência é minha, todavia, sabem-me a pouco, a mim que dispendo 5 a 6 horas diárias a prepará-lo. A minha admiração pelos heróis do PCP - que, durante décadas, imprimiram, esconderam, transportaram, distribuíram o "Avante!" sem terem ideia do seu êxito, correndo o risco da prisão, das torturas, da morte - não tem senão crescido ainda mais.
Penúltima nota: não percam aos Sábados à noite, na RTP/canal 2, uma belíssima introdução ao mundo da música, sobretudo da Ópera, mas também da Arte em geral, guiados pelo saber, talento e entusiasmo de um músico, pedagogo e apresentador excepcional.
Por exemplo, ele defendeu na sua edição de Sábado ido, uma concepção sobre Wagner contrária à minha. Não me convenceu (sou burro portuga, mui "testardo"), mas senti-me enriquecido depois da emissão.
Por último, exijam, com maiúsculas, ao Rodrigo Francisco, director do Teatro Municipal Joaquim Benite, TMJB, e do seu Festival , que volte a trazer a Almada "La Merda". O seu Público merece-o amplamente. Nem todas as Merdas são iguais.

Amplexos amistosos,
confiantes,
litigantes,
até sempre
Leopardo